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Os 100 anos da Igreja Anglicana no Brasil - Entrevista com Rev. Carmen Etel

No ano em que a Igreja Anglicana completa 100 anos na Amazônia, a primeira mulher brasileira a alcançar o posto de reverenda no Brasil, Carmen Etel Alves Gomes, há um ano atuando na Diocese de Belém, fala sobre a presença feminina na igreja. Elas já representam 40% do total de anglicanos do país.
Carmen Etel, que venceu o preconceito ao ser a primeira brasileira nomeada ao posto de revenda no Brasil, fala ainda da presença da Igreja Anglicana na Amazônia. O Pará foi o primeiro estado da Amazônia a ter uma sede da igreja e agora, Carmen convida o povo a conhecer mais a história dessa igreja que ela intitula como reformada e avançada.

P: Qual o primeiro Estado da Amazônia a ter uma Igreja Anglicana?
R Foi aqui mesmo, em Belém do Pará, com os missionários britânicos. A gente sabe que não foi registrada essa história, faz muito tempo, mais de 100 anos. Em 1856 chegaram os americanos de Salvador, Bahia, mas não se instalaram. Teve outra tentativa, mas também não conseguiram. Oficialmente, isso ocorreu em 1912 no Pará. A primeira Igreja Anglicana do Brasil surgiu em 1890, em Porto Alegre.

P: Como funciona a estrutura da Igreja Anglicana?
R: Nós temos uma estrutura muito democrática de igreja, precedida pelo bispo e conselho diocesano, homologado pelo concílio de igreja, quando o povo todo se reúne. É uma igreja muito democrática nesse sentido. Essa é uma grande diferença da Igreja Anglicana com a romana, não temos a presença do Papa.

P: O Brasil tem bispas mulheres?
R: Ainda não temos mulheres nessa função. Uma colega minha está concorrendo, em Porto Alegre. Estou há 28 anos ordenada na Igreja Anglicana, já concorri, mas quem escolhe os bispos é o povo. A igreja é reflexo da sociedade patriarcal, ainda é machista. Uma bispa foi ordenada na África do Sul, eleita na semana passada, vibrei com isso. É o estilo de mulher profética. No Brasil, temos essa questão de espaço que podemos ocupar, as colegas ordenadas podem ser eleitas.

P: Como foi a aceitação das pessoas em relação à sua ordenação?
R: Depende muito do lugar. No Rio Grande do Sul, onde eu atuava na época, a igreja já tinha ordenado uma mulher (uma estrangeira) e foi bem mais fácil. Havia um grande movimento de mulheres na década de 80. Foi uma coisa que o pessoal confiou na minha liderança e vocação, não por ser mulher.

P: Você sentiu algum tipo de preconceito?
R: Eu senti na Califórnia, o pessoal do México que visitava a igreja era mais conservador, os americanos nem tanto. É uma questão de psicologia, tem que trabalhar um pouco no resgate do feminino de Deus, as imagens foram construídas como o Deus patriarca, o velhinho de barbinha branca. As imagens do imaginário popular são essas e isso é muito difícil de desconstruir e construir o feminino de Deus.

P: A igreja católica tem dogmas. Quais as principais diferenças entre os dogmas da Igreja Anglicana e a Igreja Católica?
R: Acho que o principal é o celibato, a permissão para casar.

P: Você é casada?
R: Sou solteira, mas meu irmão é bispo. Não tenho filhos, meu perfil é muito missionário, de estar em vários lugares. A nossa igreja não proíbe a paixão. A cada momento da vida tu tens que está apaixonado, por tudo aquilo que tu faz e por tudo o que vive. A Igreja Católica é diferente da nossa, não só nesse sentido do celibato, mas por ter a centralização do poder nas mãos do Papa. A Igreja Anglicana tem o arcebispo que reúne todos os bispos, mas nunca determina ou administra. O único poder dele é pastoral.

P: Vocês se consideram uma igreja moderna?
R: Sim. É a igreja da reforma, sempre tá se reformando. Até a questão da mulher é um avanço.

P: Vocês cultuam santos?
R: Nós respeitamos. Se você for na Inglaterra e Estados Unidos, você vê imagens em quadros. Aqui você já não encontra isso. É uma igreja com herança protestante, é mais católica na questão do sacramento, da fé universal. Eu mesma gostaria de ter uma Maria Madalena na minha sala.

P: O que uma reverenda pode fazer?
R: Ela pode fazer tudo o que um reverendo faz, seria similar ao que um padre faz. Pode fazer cerimônia de casamento, batizado, comunhão, todo o trabalho de envolvimento com direitos humanos. A questão da celebração da eucaristia também. É uma igreja de eucaristia, dominicalmente celebramos a eucaristia e isso causa um pouco de conflito, porque as pessoas ficam pensando: “uma mulher pode representar Cristo?”.

P: A sede da Igreja Católica é Roma. E a Igreja Anglicana, onde ela é mais forte?
R: No centro dela, que é na Inglaterra. Embora eu ache que nos Estados Unidos ela cresceu muito, a Igreja Anglicana. É uma igreja que tu não encontra com menos de mil pessoas. Na África do Sul também tem crescido muito.

P: E no Brasil?
R: Creio que seja no Rio Grande do Sul. O Norte e Nordeste têm crescido bastante. Aqui no Pará temos cerca de três mil adeptos. O interior também é muito forte.

P: Quantas pessoas fazem parte da Igreja Anglicana?
R: Aqui no Pará temos cerca de três mil anglicanos. No mundo são 90 milhões. Mas isso é igual à Igreja Católica, tem um determinado número, mas quando você vai a uma celebração não comprova, a não ser que seja alguma data especial.

P: A senhora chegou a conhecer a Escola Keneddy (John F. Kennedy, apoiada pela Igreja Episcopal dos Estados Unidos) aqui? Que foi um grande marco?
R: A gente houve falar muito bem da Escola Keneddy, um lugar de formação de fé e política.

P: Você tem vontade de ser bispa?
R: Sabe que eu acho que ninguém tem vontade. Eu já até fui indicada, mas nunca me empenhei. Eu tenho um irmão bispo em casa e não é muito fácil ser bispo, ser líder de toda uma igreja. Eu acho que tem mulher que tem vocação para ser, é a igreja e a comunidade que escolhe.

P: Como é o relacionamento com a Igreja Católica?
R: No Brasil a igreja chegou com uma face mais protestante. Agora já somos muito parecidos com outras igrejas. Nós sofremos perseguição para chegar ao Pará. O nosso livro de oração teve que ser traduzido. Somos uma igreja que se aculturou. Temos influência de outros locais onde está a nossa igreja, como a Nigéria, ilhas Caribe, Guiana. A igreja chegou e em seguida se aculturou. O nosso bispo é o perfil de quem se aculturou ao Pará, tem um jeito simples, humilde, se veste como o povo daqui. Então, a gente termina se aculturando.

P: Vocês têm uma Bíblia própria?
R: Não, a nossa Bíblia é a mesma da católica. É a mesma Bíblia pastoral, com linguagem popular. A Bíblia sempre vai ser a mesma, independente de ser romana ou protestante. Nós não temos uma Bíblia separada para nós, isso não existe. Fundamentalmente é a mesma Bíblia, não é como os Mórmons ou os Adventistas, eu acho.

P: Como a igreja se sustenta hoje? Tem pagamento de dízimo?
R: Todos os membros da igreja têm que ser membros contribuintes.

P: Além de ser pastora, pode exercer uma profissão?
R: Pode, pode sim. No caso, o padre não pode, mas nós podemos. Eu optei pela teologia. Quando morava no interior, muitas vezes fui convidada a participar de partidos políticos. Sempre me envolvi com movimentos populares, MST, então eu tinha um chamado muito forte para trabalhar com políticos. Mas o meu bispo me dizia que ou uma coisa, ou outra. E eu escolhi a igreja.

P: Esse ano se celebra o centenário da Igreja Anglicana. Como vai ser a programação?
R: Sim, a nossa programação inicia em 26 de agosto e vai até 2 de setembro. Vamos ter momentos muito culturais, chá das flores, presença de dirigentes de ministérios, reverendos, cantores e um almoço. No encerramento vem gente do Canadá, Inglaterra e gente também da Califórnia, onde eu trabalhei. Estamos chamando o povo do Pará, um povo tão acolhedor.

P: A Igreja Anglicana confirma a versão ensinada nos livros, que afirma que a igreja surgiu a partir da vontade do rei Henrique VIII de se casar, apesar de já ser casado?
R: Não, isso é só história. Dizem até que foi só uma desculpa para justificar o surgimento da igreja. A verdade é que foram os profetas que fundaram a igreja, a gente não consegue ligar uma história a outra. Vai muito além dessa questão. É uma igreja romana, com suas diferenças. É uma igreja muito liberal, que encontra o povo onde ele está. Ela trabalha conforme a realidade do lugar, é aberta aos movimentos desse tempo.

P: Como você vê o Círio de Nazaré?
R: Belém é um desafio. É preciso mostrar o Deus da Justiça ao povo que convive com a violência, muito mais do que mostrar o Deus das peregrinações. Ainda não consigo entender a procissão do Círio de Nazaré. Eu respeito, mas não entendo a motivação da corda e da caminhada.

P: E a confissão? Há confissão na Igreja Anglicana?
R: Sim, há uma confissão conjunta. Mas se a pessoa quiser uma confissão em particular, algo mais reservado, a gente faz. Só que nos Estados Unidos tem uma diferença. Lá, se você ouvir uma confissão que envolva violência à mulher ou às crianças, tem que denunciar, comunicar as autoridades, encaminhar o caso. Você não pode se calar, se não se torna cúmplice.

P: E aqui no Brasil? Como agir em casos que envolvam o mesmo tema? Você quebraria a confiança de uma confissão?
R: Ninguém, nenhum bispo vai me dizer que eu não posso fazer o que a minha consciência determina. Eu denunciaria.

P: Vocês acreditam em santos? Os cultuam?
R: Nós não temos mediadores. Só Jesus Cristo.

Diário do Pará
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