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Programas evangélicos de Maceió são objetos de estudo de Comunicação

A partir do Programa de Iniciação Científica (Pibic), a aluna de Relações Públicas da Universidade Federal de Alagoas, Emanuelle Rodrigues, fez análise dos programas de televisão de três igrejas neopetencostais de Maceió. Foram verificados os processos de difusão e recepção de conteúdo religioso das igrejas Universal do Reino de Deus (IURD), Internacional da Graça de Deus (IIGD) e Mundial do Poder de Deus (IMPD), onde foi constatado o uso de temáticas centradas na desgraça humana como forma de provocar a empatia com os fiéis.
Orientada pelo professor José Guibson Dantas, a aluna utilizou-se da Teoria das Mediações, para entender os efeitos que os programas têm sobre seu público.
“Comumente nos deparamos com a crítica popular sobre essas instituições religiosas, colocando as pessoas que assistem aos seus programas como um público passivo e manipulado pelas igrejas, que ao ver dessa crítica, querem apenas enganar e extorquir os seus seguidores”, explicou Emanuelle.
Foi utilizada a metodologia Hermenêutica das Mediações, criada por Dantas, que dividiu a pesquisa em quatro etapas: análises do meio e produção, da mensagem e conteúdo e da recepção e depois fez uma análise conjunta da recepção midiática pelos fiéis. Os programas estudados durante duas semanas foram veiculados diariamente na grade de programação das emissoras em Maceió.

Relações entre igrejas e mídias
Conforme a pesquisadora, foi a partir da década de 70 que teve início a terceira onda do movimento pentecostal, chamado de neopentecostalismo. Foi nessa década que nasceu a Igreja Universal, criada por Edir Marcedo, Romildo Ribeiro Soares e Roberto Lopes. O movimento era marcado pela união de elementos da cultura brasileira com religiosidade popular.
Para fazer difusão da religião, a Igreja Universal comprou a TV Record, em 1989, onde passou a reproduzir seus programas. Segundo Emanuelle, a decisão foi tomada por Macedo, após a sua volta dos Estados Unidos, quando conheceu o televangelismo norte-americano. “Sua estratégia sempre foi orientar a comunicação para as necessidades do receptor, enfatizando as desgraças humanas em seus discursos, oferecendo, em contrapartida, a salvação para todos os males”, defendeu.
A aluna constatou que do combate às religiões afro-brasileiras, em especial à Umbanda, a Igreja Universal se utiliza de elementos simbólicos da cultura brasileira, como forma de identificação dos preceitos evangélicos com as necessidades de seus fiéis. A bíblia seria utilizada para legitimar o discurso de combate ao Diabo.

Programas analisados
Foram analisados os programas Fala Que Eu Te Escuto, Mistérios da Vida Amorosa, Plantão da Fé, Jejum de Daniel, Ponto de Luz, Saindo da Crise e Nosso Tempo. Conforme a pesquisa, esses meios são formas de propagar o discurso religioso na mídia e incentivar os telespectadores a visitar os templos da instituição. “Apesar da baixa qualidade dessas produções, as narrativas convencem, pois a técnica não se limita apenas à qualidade da imagem, mas ao discurso em si e ao grau de representação e reconhecimento do receptor com a mensagem”, defendeu Emanuelle.
O Fala Que Eu Te Escuto, exibido na Record durante as madrugadas, seria o de melhor qualidade e de maior receptividade do público, com a produção do gênero jornalístico.
Ele discute temáticas do cotidiano, a partir de investigações, entrevistas, reportagens e discussões nas redes sociais. “Há por trás desse discurso bastante ideologia iurdiana, onde os debates se voltam para temas profanos, com a finalidade de legitimar o caráter sagrado da Universal”, apontou Emanuelle.
Na transmissão de cultos, é comum ver manifestações de pessoas “endemoniadas” e a exaltação da plateia. “Os testemunhos possuem papel fundamental no marketing religioso da Igreja Universal, legitimando o poder da instituição perante o mal. Na maioria dos casos, os 'demônios' são entrevistados na frente de todos, onde as perguntas têm mais tom de afirmação do que de questionamento”, enfatizou Emanuelle.
O Plantão da Fé trata de temas relacionados à vida amorosa; o Ponto de Luz aborda questões de dimensão espiritual; e o Nosso Tempo trata de assuntos da vida financeira. “Os pastores sempre conversam com um ou outro fiel, por telefone, e colocam seus nomes na taça de óleo, que dizem estar ungida”, detalhou a autora da pesquisa.
Conforme a aluna, apesar de propagar a fé, os programas não têm a intenção de fazer a conversão dos seus públicos, mas de incitá-los a visitar os templos. Para isso os programas apresentam histórias de pessoas convertidas, onde indivíduos, anteriormente caídos em desgraça se erguem, após frequentarem os templos e se tornarem dizimistas.
“Muitos contos são acompanhados de clipes em que atores simulam as histórias, enquanto os recém-convertidos dão seus testemunhos”, relatou.

Perfil dos fiéis
A pesquisa também fez um plano demográfico dos fiéis, onde constatou que a maior parte deles vem das camadas populares da sociedade e de baixa escolaridade. Oitenta e um por cento do público é formado por mulheres e, por isso, grande parte do conteúdo é voltado para o público feminino.
A união de recursos audiovisuais com uma linguagem apropriada seria a fórmula do sucesso para o grande público conquistado na televisão brasileira. Os fiéis ainda atuariam como produtores dos programas, ao participarem de enquetes, ou mesmo com testemunhos de histórias pessoais relatadas.
Durante vários dias, Emanuelle acompanhou comunidades e redes sociais com participação de evangélicos e os questionou sobre o que achavam do uso das mídias pelas igrejas. A autora conta que o público acredita que os testemunhos exibidos na televisão são essenciais para a demonstração do poder de transformação da Igreja e que servem como inspiração para um futuro promissor.
A própria história do bispo Edir de Macedo serviria de exemplo de sucesso: “Vindo de família humilde, ele também conhece as aflições e necessidades desses contingentes em crise, resultando em uma linguagem aproximativa fidedigna no discurso de sua igreja. A expansão da IURD para o mercado, assim como seu acúmulo de riquezas, são tidos como exemplo para os fiéis, que afirmam ser isso uma obra de Deus, além de acharem Macedo um grande empresário, exemplo a ser seguido por todos”, refletiu Emanuelle.
Ela acrescenta que a não superação dos problemas por vias materiais faz os fiéis se voltarem para o sagrado. “Há, na verdade, uma troca de interesses, pois a maioria das pessoas que vai à instituição, faz isso por ter necessidades que não são supridas em outros lugares, depositando na fé as últimas esperanças para atingir seus objetivos, quase sempre de cunho financeiro”.
A pesquisa foi apresentada no início de setembro, no último Intercom Nordeste, realizado em Fortaleza-CE e em outros seis eventos, alguns deles, de temáticas religiosas. O trabalho poderá ser conferido na íntegra no próximo Congresso Acadêmico da Ufal, com data ainda não definida.

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