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'Não crer em Deus é solução contra fundamentalismo', diz Rushdie no RS

Com um humor que contrasta com a experiência de viver 12 anos condenado à morte por um regime fundamentalista ao apenas escrever um livro, o escritor indiano-britânico Salman Rushdie, abriu o ciclo de palestras da temporada 2014 do Fronteiras do Pensamento. Com a plateia lotada, ele subiu ao palco do Salão de Atos da UFRGS nesta segunda-feira (12), às 20h12, ministrando a conferência "Eventos públicos e vida privada: literatura e política no mundo moderno".
Questionado sobre qual a solução para acabar com o fundamentalismo, o escritor foi rápido: "Deixar de acreditar em Deus. Isso realmente funciona", disse arrancando risos da plateia. As gargalhadas não estiveram presentes apenas neste momento. Salman brincou com o ditador norte-coreano Kim Jong-un, com a morte de seu tio, com o tempo em que ficou ameaçado e até com a estrutura aeroportuária brasileira.
Salman contou ter escrito seu livro mais conhecido, "Versos Satânicos", de 1989, pensando em como as narrativas impactam a vida das pessoas e as fazem conhecer realidades distantes por meio das sensações, e não através de informações cruas que são recebidas diariamente pelo noticiário. De acordo com ele, seu principal objetivo foi passar a ideia de que todos podem ser empoderados para discutir e contar a própria História. "A literatura nos dá a capacidade da experiência vivida no mundo", disse.
Rushdie afirma que as histórias são partes importantes na criação do imaginário coletivo das pessoas sobre a vida do povo e sobre o que pensam de outros lugares. O autor brincou com uma situação que viveu em um aeroporto de São Paulo, quando vinha para Porto Alegre, para ilustrar o conceito. Ele viu um indiano, na fila para o ônibus, que disse se sentir em seu país de origem, já que a organização era um caos e poucos se importavam. "Estamos em casa no outro lado do mundo. Vivemos as mesmas coisas", assegurou, lembrando que as ideias são construídas também de acordo com o local em que em que se vive e com o contato cultural de cada lugar. "Como seriam nossas ideias se tivéssemos de viver no Egito de hoje em dia?", perguntou.
Um dos principais apontamentos da palestra foi que atualmente existe pouca diferença entre o impacto do público e do privado, já que as decisões dos políticos e chefes de estado modificam as vidas privadas imediatamente. Salman afirmou que antigamente era possível escrever um romance inteiro focando apenas nas coisas pequenas das vidas das pessoas, sem as contextualizar politicamente. O atentado de 11 de setembro de 2001, nos Estados Unidos fez a população perceber de uma maneira muito clara a forma com que as ações políticas influenciam o cotidiano imediatamente e que é muito difícil para os autores fugirem do posicionamento de seus personagens à realidade social.
Ao contar um dos momentos mais complicados de sua vida, utilizou, novamente, o bom humor para falar que o escritor tem força para modificar a realidade. Ele brincou com o fato de que quase todas as autoridades que reclamaram de sua obra tiveram mortes trágicas. "Vocês sabem que a pena é mais poderosa que a lança. Cuidado com os escritores", disse.
Salman também viu com ressalvas a necessidade do cidadão atual de ter que se encaixar em partições para compreender o seu lugar na sociedade e apontou a necessidade de abrir as conexões com o mundo. "A arte procura abrir mais o universo. É uma pena que vivemos em uma era em que nem todos concordam que ele deva ser mais aberto", afirma.
Após a exposição inicial, o escritor respondeu perguntas da plateia. Questionado se o período de 12 anos em que ficou ameaçado de morte influenciou sua vida, foi taxativo. "Seria um escritor muito burro se não prestasse atenção neste episódio. Por mais obscuro que seja, havia uma voz que me dizia que esta era uma boa história", destacou.
Rushdie contou que já leu alguns escritores brasileiros e que acredita que Machado de Assis é uma das principais figuras da literatura em língua portuguesa. Ele também compartilhou já ter lido bastante da obra de Clarice Lispector, que classificou como "muito interessante", e de Jorge Amado, que confessou ter gostado algumas obras, mas de outras, nem tanto.
Salman finalizou o evento com uma reflexão sobre o que é ser escritor: Ele sublinhou que não considera a escrita como uma profissão, mas como uma vocação, ou até mesmo um chamado, e que esta é a única maneira de entender o que acontece ao seu redor. "Mesmo que não me pagassem nada, eu continuaria escrevendo. Aproveito para falar já que meus editores não estão aqui. Eles precisam continuar me pagando", encerrou entre risos e aplausos.

G1
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