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Representantes de seis religiões se reúnem para torcer pelo Brasil

Para depositar toda a fé no Brasil, o CORREIO levou para o gramado da Fonte Nova representantes de seis religiões.
Em Salvador, a Arena Fonte Nova é o templo da Copa do Mundo. Mas, para quem acredita que a fé na bola não é suficiente, um cerco espiritual protege o estádio. Em um perímetro de um quilômetro (metade do que determina a Fifa, em dias de jogos) ficam: uma sinagoga e um centro islâmico, ambos em Nazaré; a convenção da igreja evangélica Assembleia de Deus, localizada logo acima da Arena, no Jardim Baiano; os oito orixás do Dique do Tororó, que cuidam de uma das entradas da praça esportiva; e, para reforçar as energias, algumas das 372 igrejas católicas da cidade - uma para cada um dos 365 dias do ano, como reza a lenda, e mais sete (esse número cabalístico) de sobra.
Para depositar toda a fé no Brasil - e até fazer uma torcida para que a Seleção dê uma passada para buscar o axé, a água benta e todas as outras bênçãos em terras baianas durante as quartas-de-final -, o CORREIO levou para o gramado da Fonte Nova, no último dia antes de o estádio ser entregue à Fifa (tarde de 20 de maio), representantes de seis religiões.
As lideranças religiosas não esconderam, no encontro, a paixão pelo futebol, que uniu de imediato o grupo, mesmo em suas particularidades e até divergências. O padre Ângelo Magno, da Paróquia de Sant’Ana (Rio Vermelho), e o pai de santo Duchu D’Ogum, do Ilê Axé Awá Negy (Federação), tricolores baianos de carteirinha, foram “sincréticos” com o pastor evangélico e rubro-negro Márcio Braga. Já o rabino Uri Lam pôde gracejar com todos por ser “fiel”, posto que corintiano, além de pró-Seleção Brasileira.
O sheikh Ahmad Abdul, imã há 22 anos em Salvador, nasceu na Nigéria e, assim como o padre italiano Emílio Bellani, diz torcer, sim, para o Brasil. Porém, se o time de Felipão tiver de enfrentar a Nigéria ou a Itália, respectivamente, avisam que mudam de lado na hora. Sorte nossa que, nesta Copa, estes embates parecem pouco prováveis.

Fusão
Representando a Federação Espírita da Bahia, o professor Ricardo Carvalho comparou o encontro dos religiosos como uma semente da fusão de culturas que a cidade já começa a viver, com a chegada de turistas de diferentes tradições.
“Na Copa se aproveitará o esporte para promover a boa convivência e a tolerância. Essa mistura que a gente vê na nova era está muito ligada à doutrina espírita, de que não existe uma verdade ou religião absoluta, mas que todas as religiões têm a possibilidade de nos atender, a depender de cada demanda”, aponta.
Pois está claro, caro Ricardo, que a demanda é coletiva: ganhar mais uma estrela para a camisa verde e amarela, que já ostenta cinco. “O povo da Seleção tem como obrigação procurar um terreiro para preparação de banhos cheirosos para entrar no campo com energia positiva, fazer um trabalho de odú para que tenha união e entre com o pé direito”, opina pai Duchu.
Já o pastor Márcio, que lidera uma igreja no bairro de Amaralina, aposta nos efeitos de “botar o joelho no chão”. “Nós oramos pela nossa Seleção, estamos nesse propósito. É preciso pedir a Deus as bênçãos que queremos. Depois de todo esse investimento (no Mundial), seria vexatório perder”, avalia.
Com uma mensagem pacificadora, o padre Ângelo Magno lembra de preservar o espírito de harmonia durante os jogos. “O esporte ajuda a dar passos para dois importantes pilares da nossa fé: o da justiça e o da caridade”, diz.
O rabino da Sociedade Israelita da Bahia (SIB), Uri Lam, endossa: “Somos loucos pelo futebol, mas, independente de para quem for torcer, é preciso estar com o espírito de shalom (paz), e que vença o melhor”.

Concentração
Nesta Copa, a fé, em certa medida, ficará na torcida. Diferente do que acontece desde o Mundial de 1990, quando as concentrações do Brasil abrigaram cultos religiosos com a comissão técnica e os jogadores, a Granja Comary deve ter as portas fechadas para líderes religiosos.
O coordenador técnico da CBF, Carlos Alberto Parreira, afirmou este mês à imprensa que a religiosidade é um tema fora de questão desta formação da Seleção, tanto que a comissão técnica nem sequer sabe a crença dos atletas.
Para quem se empolga com o movimento #VaiTerCopaSim, que tem 13 letras, pode se apegar a uma superstição, crença ou entidade na hora da torcida. Santo Antônio, por exemplo - que inspirou a fixação de Zagallo, ex-jogador e ex-técnico da Seleção, pelo número treze - será celebrado na sexta-feira, dia da primeira partida aqui em Salvador.
É a ele que o pai Duchu, nascido Osvaldino Moreira, vai dedicar sua torcida. “Já tiramos os panos vermelhos do barracão, que foram de uma festa para Exu, e montamos o nosso Santo Antônio todo decorado com verde e amarelo”, conta o pai de santo sobre a decoração do terreiro, no bairro da Federação.

Justiça
O apego por Santo Antônio já demonstra que ele acredita que o importante é a fé. “Ogum (que Duchu D’Ogum leva no nome e que, no sincretismo, é Santo Antônio) é guerreiro, abre o caminho, vence as batalhas, mas qualquer orixá pode levantar a cabeça para o Brasil ganhar, basta dedicação. Agora, é importante estar atento a Xangô. Esse é o ano da justiça, é o ano dele”, alerta.
Esperando, então, que a vitória faça parte de uma justiça divina, não vale xingar a mãe do juiz, e nisso todos concordam. “As palavras têm um peso importante”, diz o padre. Foi por isso que, ao ouvir pai Duchu falar sobre o seu desagrado com a realização da Copa do Mundo no Brasil, o sheikh Ahmad logo brincou: “(se é contra a realização da Copa) talvez não seja a pessoa certa para estar aqui”, disse, sorrindo, antes do outro explicar que apesar do desagrado com os gastos públicos para a realização do Mundial, vai fazer a corrente de vibração positiva pelo hexa.

Protestos
O líder espírita também sugere que é preciso dividir os temas. “Tenho uma postura crítica com os gastos da Copa, inclusive fui muito ativo nas manifestações do ano passado, mas isso não impede que seja apoiador do futebol e torça para a vitória do Brasil”, diz Ricardo, que por conta de trabalhos na área de comunicação vai acompanhar as partidas em Salvador bem de perto, dentro da Arena Fonte Nova.
De dentro ou fora dos estádios, a torcida é uniformizada, e não estamos falando na camisa verde-amarela. “Goool”, grita o rabino, “é uma linguagem universal. Torcida é torcida, não muda nada”, afirma o rabino.
O pastor Márcio Braga, no entanto, um pouco afastado do futebol nos últimos anos, garante que tem uma reserva de energia para ser usada nos dias de jogos com os comandados de Luiz Felipe Scolari. Conta que era um torcedor fervoroso do Vitória. “Sofria, me empolgava demais, aí deixei um pouco”, recorda.

Vibração positiva
O líder evangélico deve se dividir entre a torcida por Neymar e companhia e a evangelização, nos dias de jogos. Junto com 500 voluntários, pastor Márcio organiza um receptivo em pontos estratégicos da cidade, com distribuição de Bíblias customizadas para a Copa do Mundo.
Na sinagoga, um grupo da terceira idade até se programa para assistir algum dos jogos juntos. Já os padres, que na verdade se empolgam mais para falar do Bahia do que da Seleção Brasileira, vão se reunir com jovens da igreja para esperar um gol do ex-tricolor Daniel Alves, que jogou no clube entre os anos de 2001 e 2003, até se transferir para a Espanha.
Onde estiverem torcendo, os padres Emílio e Ângelo, pastor Márcio, pai Duchu D’Ogum, o líder espírita Ricardo e rabino Uri Lam e Sheikh Ahmad Abdul estarão tranquilos por terem dado a benção ao evento, esperando, apenas, seguidores nos pedidos de “paz”, que foi a palavra que todos mais falaram enquanto estiveram na Arena Fonte Nova.

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