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De mendigo a campeão mundial: veja a trajetória do "Pastor do Tatame"

Roberto Nogueira, de 34 anos, é pastor há seis anos e luta jiu-jitsu há 21 anos. Atleta já morou nas ruas por conta do uso de drogas e hoje dá aulas para crianças carentes.
O que poderia unir um pastor evangélico a um esporte tido por muitos como violento? Na vida do carioca Roberto Nogueira, de 34 anos, o jiu-jitsu e a igreja evangélica andam lado a lado. Pastor há seis anos e atleta há 13, Roberto divide o seu tempo entre a arte marcial e os compromissos religiosos. A “vida dupla” também traz recompensas em dobro. Além de evangelizar as pessoas, Roberto também vem acumulando vitórias dentro do tatame. Nesta segunda-feira, ele comemora um mês da sua mais recente conquista: o título mundial da modalidade na categoria absoluto (sem limite de peso), disputado no dia 18 de julho em Teresópolis. Além das batalhas no esporte, Roberto já superou um problema com drogas na adolescência, que o fez, inclusive, ir morar na rua.
Tatuado, lutador de jiu-jitsu e com uma linguagem bem jovem, Roberto foge dos padrões que se imagina em um pastor evangélico. Porém, para ele isso não é problema. Segundo o atleta, alguns até se espantam quando ficam sabendo das duas atividades, mas ele defende que “Deus não quer ver uma roupa, uma tatuagem, ele quer ver o coração das pessoas”.
- A questão da roupa, da tatuagem, do piercing, do skate, do surf, do reggae, do rock, se for para Deus, não tem problema. Hoje eu vivo para esses jovens, então não adiantar eu querer colocar uma juventude dessa dentro de uma caixa de fósforo, não adianta eu querer colocar um Deus, que criou céu, terra e mar, que criou todas as coisas, dentro de uma caixa de fósforo. As minhas tatuagens, eu uso para me aproximar desses caras. Essa é minha visão hoje. É fazer uma igreja contextualizada, onde eu vou poder olhar para o jovem e ele vai poder olhar para mim e vai poder acreditar que ele pode ser evangelizado da maneira que ele quer – disse.
As minhas tatuagens, eu uso para me aproximar desses caras. Essa é minha visão hoje. É fazer uma igreja contextualizada, onde eu vou poder olhar para o jovem e ele vai poder olhar para mim e vai poder acreditar que ele pode ser evangelizado da maneira que ele quer"
O fato de pregar para jovens faz com que Roberto use métodos diferentes para atrair a atenção deles. Ele diz que precisa usar uma linguagem mais próxima da realidade para conseguir atingir o seu objetivo, além de demonstrar através de atitudes o que foi discutido. - Eu não prego com a bíblia, eu não prego só para ficar falando. Hoje as pessoas estão muito cansadas daquele evangelho de falar, e na hora de viver as pessoas não vivem. Hoje quando você fala que é evangélico, as pessoas tomam um susto. Ficam até com medo. Então eu creio que hoje as pessoas têm que pregar com atitude, com amor. Estender as mãos e ir até os necessitados – relatou.

A competição
No mundial, Roberto teve ao todo sete lutas até chegar ao título. Mais de 1.200 atletas participaram da competição. Segundo ele, um dos principais obstáculos, além do cansaço, foi o clima da serra carioca.
- A gente saiu daqui desse calor gostoso da Paraíba, mas o campeonato foi na serra, em Teresópolis. Estava uns 10 graus, muito frio. A competição era para ter sido feita em dois dias, só que terminou sendo só em um dia só. Minha primeira luta estava marcada para começar às 15h, mas eu só lutei às 17h. Já minha última luta foi às 23h. Durante esse tempo eu fiz sete lutas. Foi muito desgastante. Quem pratica arte marcial sabe que sete lutas numa competição é algo muito pesado e foram atletas muito duros, de todos os pesos – afirmou.
Roberto disse que a luta mais difícil foi a da semifinal. Segundo ele, o adversário estava descansado e foi bastante duro. Ele relatou ainda que, em um determinado momento, cogitou bater e desistir da luta, mas tentou uma última alternativa e conseguiu sair com a vitória.
- Para mim, a fase mais difícil foi a semifinal. Depois de cinco lutas eu estava muito cansado e entrei para lutar com um cara que estava de "baia", que é uma expressão que nós usamos quando o lutador está descansado, porque não teve luta na chave dele. Ele me deu uma chave de joelho e entrou muito justo. Estava pronto para bater e quando olhei eu vi o rosto da minha esposa, dos meus amigos daqui. Aí eu pensei: não vou bater. Quando eu fui girar para sair, me deu cãibras na outra perna, a perna ficou dura. Pensei novamente em bater e a galera começou a gritar. Foi quando eu pensei em tentar um último movimento. Coloquei minhas mãos nas costas dele e empurrei. Meu joelho saiu. Ai eu falei: agora eu não bato mais não, querido. Fui para cima com sangue nos olhos e dei um estrangulamento nele, consegui finalizar a luta e sair de lá morto de cansado. Tive que tirar gás de onde não tinha para fazer a final – explicou.

Próximos passos
Após o título mundial, Roberto já traçou o seu principal objetivo para o ano: disputar um campeonato na Califórnia. Além disto, ele pretende participar de competições no Nordeste.
- Vou lutar um campeonato que vai ter em Fortaleza em outubro, mas a minha visão agora está em um campeonato que vai ter na Califórnia em novembro. Estou buscando ainda uns patrocinadores. Eu já consegui uma hospedagem lá com uns amigos e eles cederam a casa e a alimentação. Hoje eu só preciso das passagens para representar a Paraíba nesse campeonato em novembro.

A verdadeira vitória da vida de Roberto
Quem hoje vê um Roberto feliz não imagina a sua história. Hoje ele é casado, pai de dois filhos e leva uma vida estável. Mas o atleta-pastor já passou por diversas situações adversas. No início da adolescência ele começou a usar drogas e rapidamente chegou ao "fundo do poço", como ele mesmo diz. O auge da decadência foi quando ele virou morador de rua, por conta das drogas. Roberto conta que o jiu-jitsu e a sua fé foram pontos chaves na sua recuperação.
- Eu comecei a usar droga muito cedo, então eu posso dizer que, da minha época, eu usei todos os tipos de drogas possíveis. Eu comecei com a maconha, que é a porta. Cheirei cola, clorofórmio, benzina, éter, usei ácido, cheirei cocaína, tomei chá de cogumelo. Então pode-se dizer que eu usei todos os tipos de droga e cheguei no fundo do poço. Morei na rua, fui mendigo, tive uma caminhada bem no fundo do poço mesmo, discriminado pela sociedade, minha família não acreditava mais em mim. Então eu posso dizer que o jiu-jitsu foi uma das portas para eu me recuperar. Mas eu ainda fiquei nas drogas até os 18 anos. O que me fez sair das drogas mesmo foi quando eu comecei a caminhar com Cristo e mudei a minha filosofia de vida.
No projeto faltam quimonos e placas de tatames para conseguir atender a todos os alunos (Foto: Rammom Monte / GloboEsporte.com/pb) Morando há dois anos em João Pessoa, Roberto participa de um projeto social, chamado Projeto Resgate, há aproximadamente seis meses na Comunidade Vila Feliz, localizada no bairro do Jacaré, em Cabedelo, que fica na Região Metropolitana de João Pessoa. O pastor-atleta dá aulas de jiu-jitsu duas vezes por semana para aproximadamente 60 crianças carentes. Ele acredita que o projeto pode afastar muitas destas crianças do mundo das drogas, inclusive usando a própria história de vida como exemplo.
- Eu não escondo nada. Eu mostro a eles as coisas que me levaram a esse mundo das drogas, a esse mundo perdido por tanto tempo, e uso meu exemplo para que eles aprendam a lição. Eles veem em mim essa possibilidade de dar a volta por cima, sair da rua, ter uma casa, uma família, um respeito como homem. Muitas dessas crianças não têm nenhum carinho dos seus pais ou das suas mães. Muitos aqui são de de famílias desestruturadas. Pais que bebem, que se drogam. Mas aqui eles encontram o carinho, o abraço, a atenção. Isso eles nunca mais vão esquecer, são crianças que estão sendo marcadas por esse amor e por esse carinho – relatou emocionado.
- Eu estou de olho nesses talentos. Hoje eu tenho esse projeto social e ainda dou aulas também em dois colégios da cidade. Estou sempre de olho aberto para novos campeões. Ainda mais dentro de uma comunidade dessa, a galera é raçuda, os moleques têm “sangue nos olhos”. A minha intenção é pincelar esses talentos para levar para a academia, para dar uma atenção maior e representar João Pessoa e a Paraíba em campeonatos brasileiros e mundiais.
Um dos jovens participantes do projeto, Rafael David, de 13 anos, falou sobre a importância da iniciativa. Segundo ele, isso ajuda a tirar a criançada das ruas. O garoto treina há seis meses e diz que se espelha no professor.
- Eu gosto, acho legal. É um passatempo, porque a gente não fica em casa e o professor fica ajudando muito a gente. Deus abençoou nosso professor, e quero que me abençoe também ou um dos meus amigos para ser também campeão mundial igual a ele. Ele é um exemplo – falou o menino.

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