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Pujança do cristianismo no país da Samsung

As conversões ao catolicismo não pararam na Coreia do Sul desde o século XVIII, apesar das perseguições. Hoje, o país é célebre pela liberdade religiosa e, mesmo se o budismo continua forte, a popularidade das igrejas cristãs é óbvia para quem visita Seul.
Faz-se obra na escadaria que conduz à catedral de Myeong-dong, construída em tijolo e de estilo gótico no final do século XIX e hoje um dos edifícios mais emblemáticos da baixa de Seul. A cruz no topo da torre é uma das muitas que se veem espalhadas pela capital sul-coreana, competindo com os ecrãs gigantes da Samsung e da LG no cimo dos prédios e lembrando que este país famoso pela tecnologia é também um bastião do cristianismo na Ásia. E que em agosto acolherá Francisco, segundo Papa a visitar a Coreia, depois de João Paulo II em 1984 e 1989.
«Acho que é por causa do Papa», explica um dos operários que descarrega material de um camião, percebido graças a um jovem feito intérprete. Coincidência ou não, o esforço para embelezar o acesso à catedral estará concluído a tempo da chegada de Francisco, dia 14, que além de visitar Seul estará em Daejeon. Há 25 anos foi João Paulo II que na sua segunda viagem ao país voltou a prestar homenagem aos cristãos coreanos, comunidade com uma história de perseguições e mártires, mas que hoje exibe grande vitalidade. Calcula-se que dos 53 por cento de sul-coreanos que assumem prática religiosa, mais de metade sejam cristãos, com a Igreja Católica a ser a maior das que seguem Jesus, mas as confissões protestantes a somarem mais crentes. A outra grande religião coreana é o budismo, introduzido no século IV a partir da China.
Funcionária pública, Bora Kim é uma cristã protestante orgulhosa da sua pertença religiosa. Diz que há quatro gerações que a família se converteu à mensagem de Jesus e que toda a sua maneira de ser tem que ver com essa opção pelos valores cristãos. Elogia o papel dos missionários, que, depois da Guerra da Coreia (1950-1953), conquistaram grande simpatia pelo seu trabalho pelos mais desfavorecidos, sobretudo as crianças. Construíram escolas e hospitais por todo o sul do país, dividido do norte comunista até hoje. Bora Kim recorda que o seu avô teve contacto estreito com missionários americanos que vieram para a Coreia nessa época e que «com um deles aprendeu a usar marionetas para explicar a mensagem cristã aos mais novos».
Se toda a gente admite que o dinamismo das igrejas protestantes é impressionante, até por via dos meios económicos, é também indesmentível que a história do cristianismo na Coreia começa com o catolicismo. «A Coreia é um caso único. Não foram estrangeiros que trouxeram o cristianismo, foram os próprios coreanos que o introduziram no país a partir da China», explica Pedro Louro, padre português, um dos missionários da Consolata que vive nesta nação asiática.
É em Yeokok, a meia hora do centro de Seul viajando de metro mas já na diocese de Incheon, que este ribatejano a viver há 14 anos na Coreia faz a sua vida. Celebra a missa em igrejas da zona, a pedido dos sacerdotes respetivos, mas também na pequena capela da sede dos Missionários da Consolata. Sentado no chão, numa pequena sala onde as únicas decorações são uma fotografia do beato Allamano e uma imagem de Nossa Senhora da Consolata, Pedro Louro faz a homilia em coreano, língua que aprendeu já no país, para uma audiência de dúzia e meia de fiéis. No final, oferece um marcador de livros com a Senhora da Consolata. «É bonito. Tem utilidade. E é uma forma de agradecer o apoio que nos dão», diz o missionário. É que durante toda a manhã um grupo de senhoras esteve a ajudar Marcos Coelho, outro missionário português, a colocar em envelopes transparentes a revista que fazem na Coreia, o equivalente da Fátima Missionária.
«Ao todo somos dez missionários, três portugueses», diz Pedro Louro, acrescentando que Álvaro Pacheco, há 17 anos na Coreia, está a preparar o regresso a Portugal. Na casa da Consolata em Yeokok (há mais duas) surge para o almoço um sul-coreano recém-chegado de África, sendo que o país é famoso por produzir missionários, tanto católicos como protestantes.
Aliás, nesta Coreia onde a liberdade religiosa é total (ao contrário do que se passa na Coreia do Norte, oficialmente ateísta) a vitalidade do cristianismo tem levado a uma multiplicação de igrejas protestantes, algumas envolvidas em escândalos como o do ferry naufragado há meses e que pertencia a uma empresa ligada a pastores. «É um grupo que não é reconhecido pelo Conselho das Igrejas», explica Pedro Louro, que lamenta excessos e a incapacidade das autoridades para os travar. Outra polémica é a situação das Testemunhas de Jeová que, visto os seus membros recusarem cumprir o serviço militar, têm uma relação conflituosa com o governo. É preciso não esquecer que nunca foi assinado um tratado de paz entre as Coreias e as duas contam com centenas de milhares de homens em armas e são pouco recetivas a pacifistas.
Em Seul, perto do mercado de Dongdaemun, dois jovens distribuem panfletos. São Testemunhas de Jeová e um deles, estudante universitário, lamenta não ter nenhuma publicação em português mas oferece uma em inglês. Questionado sobre quantos são os fiéis na Coreia, responde «um milhão», número que tem todo o ar de ser só uma ambição. Prova de que a diversidade religiosa é uma das marcas da Coreia, mais à frente surge uma bancada a fazer a apologia da Falun Gong, corrente espiritual recente que tem tido problemas na China, o seu país de origem.
Com uma língua bem distinta do chinês e do japonês, os coreanos têm prováveis origens nas regiões siberianas e por isso não é de estranhar que o mais antigo dos seus cultos seja o xamanismo, ainda com seguidores. Depois, importado da Índia via China, chegou à península o budismo, em tempos religião oficial e hoje forte no sul do país, onde existem os templos mais populares, como o de Bulguksa, que atrai milhares de turistas a Gyeongju, antiga capital do reino de Silla. A partir do século XIV, com a ascensão da dinastia Joseon (ou Chosun), o neoconfucionismo impôs-se e o budismo começou a ser reprimido. Não admira que quando surgiram os primeiros sinais de presença cristã a resposta tenha sido também a perseguição implacável. «Hoje o confucionismo sente-se sobretudo na ética do trabalho, no respeito pelos mais velhos e no gosto pelo estudo», nota um jornalista britânico, tão interessado nas coisas coreanas que até domina um pouco o idioma deste país pouco maior que Portugal, mas com 48 milhões de habitantes.
Foram estudiosos coreanos que visitavam a corte chinesa que começaram por se interessar pelo que chamavam «filosofia ocidental», com os jesuítas de Pequim a terem influência. Assim, a partir do século XVIII, grupos de coreanos começaram a considerar-se católicos, sendo perseguidos. Andrés Kim Taegon, martirizado em 1846, foi o primeiro sacerdote coreano. Muitos outros católicos tiveram o mesmo destino, incluindo missionários franceses. Foi aliás a reação militar francesa, e também de outros países ocidentais como os Estados Unidos da América, que obrigou os monarcas Joseon a acabarem com as perseguições religiosas. Foi ao mesmo tempo sinal da fraqueza do Estado coreano, conhecido como o reino eremita, deixando adivinhar a colonização japonesa, que terminou só após a Segunda Guerra Mundial.
Francisco, que estará quatro dias na Coreia do Sul, lembrará os tempos difíceis do catolicismo local durante a beatificação de 124 mártires. A história destes é recordada em cartazes junto à catedral de Seul. A própria catedral de Myeong-dong merece ser recordada pelo abrigo que dava aos defensores da democratização, em luta contra o regime militar pró-americano. Muito do prestígio atual da Igreja Católica vem dessa luta pelos direitos humanos, até triunfar a democracia nos anos 1980 num país cheio de vitalidade e que é uma das economias mais dinâmicas do planeta, graças a empresas como a Samsung, gigante dos telemóveis e tabletes, a LG, também eletrónica, ou a Kia, marca automóvel.

FM
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