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Pastor do DF cria 'zap da oração' e recebe 700 contatos em dois meses

Pelo aplicativo, religioso recebe cerca de dez pedidos de preces por dia.
'As pessoas precisam às vezes saber que tem alguém que se importa', diz.
Desde que começou a receber pedidos de oração por meio de um aplicativo de mensagens pelo celular ha dois meses, o pastor do Distrito Federal Daniel Elias Fernandes, de 55 anos, acumulou mais de 700 contatos. O serviço, gratuito, é oferecido por meio de panfletos e faixas espalhadas pelo DF que dizem: "Pare de sofrer! Peça ajuda pelo 'zap da oração", com o número do celular pessoal do pastor logo abaixo.

"Uma pessoa diagnosticada com câncer, na hora do diagnóstico, tem o baque, mas daqui a pouco essa pessoa vai até o fim do mundo para lutar pela vida. Ela quer viver, e para isso gasta o que tem e o que não tem. É o contrário da pessoa infeliz no amor"
Pastor Daniel Elias Fernandes

Segundo o clérigo, muitas pessoas que o procuram ficam acanhadas ou suspeitam da boa-fé do que é oferecido, mas ainda assim se sentem inclinadas a buscar ajuda. "A gente percebeu que a ferramenta do 'zap' é poderosíssima, e que muitas pessoas acabam recorrendo a ela porque ficam envergonhadas de procurar um sacerdote, um líder religioso para dizer que estão passando por problemas", diz.
Desde fevereiro, Fernandes diz já ter pedido intercessão divina a maridos traídos, homens e mulheres doentes, mães com filhos envolvidos com drogas e pessoas de todas as idades em crises existenciais. O sacerdote afirma, no entanto, que a maioria dos que pedem preces estão em busca de felicidade no amor.

"Muitas pessoas estão no último grau do sofrimento e pensando até mesmo que morrer é melhor do que viver, por conta de um amor não correspondido. Mais pessoas buscam dar cabo da vida por conta da área sentimental frustrada do que, por exemplo, um diagnóstico de médico que a medicina não dá esperança", diz. "Uma pessoa diagnosticada com câncer, na hora do diagnóstico, tem o baque, mas daqui a pouco essa pessoa vai até o fim do mundo para lutar pela vida. Ela quer viver, e para isso gasta o que tem e o que não tem. É o contrário da pessoa infeliz no amor", diz.
"As escrituras sagradas dizem que não é bom que uma pessoa esteja só. Nós existimos para interagir, para compartilhar a vida, estar com alguém. Muitas pessoas estão vivendo essa frustração, até mesmo gente que tem alguém, mas é como se não tivesse."
Em casos extremos, o pastor diz que se vê obrigado a interceder para evitar tragédias. Fernandes lembra do caso de um homem que estava atormentado após descobrir ter sido traído. "Ele me falou: 'Minha mulher confessou que me traiu e estou para fazer uma besteira", afirma.
"A pessoa vê nisso [no pedido de oração] a possibilidade de não fazer. Nesses casos, falo para a pessoa colocar os pés no chão e a cabeça nos céus. Falo que não é a primeira pessoa que passa por isso e não vai ser a última na vida e que, apesar dos pesares, a vida continua. O perdão só é nobre porque ele tem que ser direcionado para quem não merece."

Preces
Os nomes de todas as pessoas que pedem orações pelo 'zap' são armazenados no telefone do pastor com siglas, para não serem confundidos com os contatos pessoais dele. Durante as preces, que são realizadas em vários momentos do dia e durante a madrugada, o clérigo não chega a citar nominalmente as pessoas que o procuram, mas diz orar por todas elas.
"As orações acontecem no meu dia a dia. Tenho minhas orações pessoais e tem o pessoal que ajuda, o grupo "Guerreiros da Oração", diz. "Também tenho a oração da madrugada, que acontece às 3h. Não menciono nome por nome, mas menciono a Deus as pessoas que têm entrado em contato com os problemas mais variados."
Para o pastor, mais do que buscar na esfera espiritual apoio para os problemas terrenos, as pessoas estão em busca de uma "âncora" na vida. "De repente a pessoa se vê em uma situação, quer seja da área sentimental ou familiar, ou o que for, e o barco da vida está sendo sacudido pelas ondas dos problemas, e a pessoa não tem uma âncora e entra em desespero, em angústia", diz.
"Um pai me mandou a foto da filha, uma menininha, entubada no hospital, e disse, desesperado: 'Olha a situação que está a minha filha, preciso de ajuda", diz.
Estender a mão por meio da tecnologia tem um grande efeito transformador, segundo ele. "Tem gente que, muitas vezes, está precisando apenas ter a consciência de que tem alguém pelo menos que se importa com ela. Ela pensa: 'Poxa, pensei que estava sozinha, mas tem alguém que está orando por mim'. Vez ou outra disparo uma mensagem de motivação pelo 'zap', um texto bíblico, lembrando que continuo orando por ela."

Fernandes afirma que tem como missão na vida ajudar as pessoas que estão em sofrimento, independentemente de credo religioso. "Muitas pessoas agradecem depois, dizem que estão se sentindo melhor. Sei que para muitas delas, o fato de elas saberem que alguém está se importando já ajuda", diz.
No caso do homem traído, o sacerdote diz que buscou manter um diálogo para tranquilizá-lo. "Essas tragédias familiares acontecem todos os dias. É gratificante saber que você preservou uma vida que nem conhece", diz ele.
Criador da Igreja Apostólica Missão Mundial, Fernandes diz que saiu de Uberlândia (MG), onde nasceu, para cumprir uma missão na Bahia, onde passou 23 anos, “após ouvir a voz de Deus”. "Literalmente, ouvi a voz do Eterno. Estava ajoelhado rezando. Ele dizia que eu deveria ir para a Bahia, que tinha uma grande obra para mim", lembra.
Três meses depois, o pastor se mudou com a família para o Nordeste para realizar trabalho missionário. Desde então, fundou mais de 70 igrejas pelo país – duas das quais no Distrito Federal: uma em Taguatinga e outra em Ceilândia, onde voluntários participam de grupos de orações.
"Me sinto muito feliz de poder ser um canal da graça de Deus e um instrumento de ajuda para muitas pessoas e de repente estar salvando a vida de uma tragédia. Quando a gente abençoa, é abençoado. Interpreto assim. A graça passa pela gente e a gente é abençoado", afirma. "A tecnologia isolou as pessoas do convívio, então fiquei feliz de ver que, dessa vez, ela alcançou as pessoas."

Publicado em G1
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