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Por que há cada vez mais igrejas do Vale do Silício?

Quem passeia pelo Vale do Silício, na Califórnia, nota ultimamente algo mais do que os inúmeros edifícios de concreto que abrigam algumas das maiores empresas de tecnologia do mundo e uma infinidade de start-ups: estão ali também várias igrejas e templos.
Eles atendem à bem-sucedida e rica população da capital mundial da tecnologia, surpreendendo uma região dos Estados Unidos que é conhecida por seu agnosticismo.
"O Vale do Silício atrai profissionais com uma personalidade mais ambiciosa e proativa", afirma Skip Vaccarello, autor do site Finding God in Silicon Valley (Encontrando Deus no Vale do Silício, em tradução literal), que reúne notícias e histórias de fé na região. "Trata-se de um tipo de gente que não vai à missa aos domingos. Seus deuses se tornaram coisas como dinheiro e sucesso."
Uma recente pesquisa colocou as cidades californianas de San Francisco, Oakland e San José – todas localizadas na região ou nas proximidades da área do Vale do Silício – entre as que possuem o menor número de fiéis que frequentam a igreja em todos os Estados Unidos.
Mas essa imagem trai a realidade atual, já que igrejas, templos e outros locais de adoração estão surgindo em prédios de escritórios, galpões e centros comunitários – e atraem uma entusiasmada congregação.
Alguns especialistas acreditam que, entre os profissionais do Vale do Silício, existe uma carência por uma experiência espiritual que não pode ser atingida no trabalho ou em casa.
"Muita gente vem para cá e descobre que, apesar de estar ganhando mais dinheiro do que sabe gastar ou de ser promovido para uma posição mais alta do que jamais sonhou, não há nada realmente preenchendo suas almas", diz Austin Walterman, de 25 anos, funcionário de uma empresa de videogames.

'Desejo por algo mais'
O termo Vale do Silício foi criado nos anos 1970 e se refere à alta concentração de empresas de tecnologia em uma pujante região ao sul de San Francisco. Isso inclui cidades como Palo Alto, Mountain View, Sunnyvale e San José.
A área é uma usina financeira com um Produto Interno Bruto (PIB) compatível com o de algumas das maiores economias do mundo. San Francisco, que por si só já é um grande centro financeiro, serve como a porta de entrada da região.
À medida que o boom da tecnologia foi tomando conta, o centro da cidade foi se tornando cada vez mais o sinônimo de uma ânsia por riquezas do que por uma realização espiritual. Mas foi ali que se instalou uma nova igreja cristã evangélica, a Epic Church.
O local não se parece muito com templos mais tradicionais. No entanto, começou a atrair as almas solitárias de San Francisco e pessoas que passam o dia trabalhando no Vale do Silício.
Fundada em 2011 pelo pastor Ben Pilgreen, a igreja criou raízes em um prédio moderno, ao sul do famoso Union Square. O único sinal de sua existência, por trás de uma grande porta de vidro, é uma pequena placa colocada na calçada.
Os fiéis chegam usando jeans ou shorts, e chinelos. Os pais colocam seus filhos diante de tablets enquanto outros se dirigem a uma sala chamada de "centro de conexão", onde ocorrem discussões em grupo. Dentro do hall principal, a banda se prepara para a missa.
A congregação de cerca de 500 pessoas é bem otimista e está crescendo. "Isso nos mostra que existe uma fome", afirma Pilgreen. "Temos pessoas que viraram milionárias da noite para o dia com o lançamento em bolsa do Facebook e do Twitter e gente incrivelmente bem-sucedida. Elas sentem um forte desejo por algo a mais."
Apesar de Walterman ter o que diz ser "o emprego dos sonhos", ele começou a frequentar a igreja por achar que faltava alguma coisa especial em sua vida.
"A igreja me tornou um líder melhor no trabalho", conta o jovem. "Ela me fez ser um amigo melhor para quem está ao meu redor e mudou toda a minha vida."

Doações milionárias
As sutis igrejas do Vale do Silício abarcam várias religiões e níveis de fé, e surgem nos lugares mais incomuns. Faz parte da cultura tech, por exemplo, começar empresas e garagens. Portanto não é de surpreender que alguns armazéns agora sirvam como templos.
"Não vemos construções tradicionais, com domos e minaretes", afirma Philip Boo Riley, professor de Estudos Religiosos na Universidade de Santa Clara. "Do outro lado do Centro Zen de Chung Tai, em Sunnyvale, está um novo templo hindu. Na mesma rua está uma igreja presbiteriana coreana. Ninguém os nota porque eles parecem com qualquer outro prédio de escritórios."
Boa parte do capital usado na construção ou na expansão desses locais vem de doações feitas por empresários de sucesso. A riqueza do Vale do Silício permitiu que templos hindus que antes estavam decadentes pudessem voltar a se tornar importantes pontos de encontro para a comunidade.
"Nos últimos 30 anos, notamos uma diversidade de crenças cada vez maior. E, apesar de não ser algo visível, há mais presença religiosa por aqui", afirma Riley.

A força do hinduísmo
A comunidade indiana é uma das mais ativas em meio às inovações que ocorrem no Vale do Silício. Um estudo da Universidade de Berkeley descobriu que, entre 2006 e 2012, o empreendedorismo indiano respondeu por 32% das empresas fundadas por imigrantes na região. E alguns dos mais inteligentes analistas da comunidade se tornaram bilionários. O templo hindu de Sunnyvale passou recentemente por uma reforma de US$ 2,4 milhões e reabriu com um enorme hall onde estão dezenas de estátuas de mármore de divindades da religião.
"Viajamos mais de 16 mil quilômetros para estabelecer aqui nossos lares e trouxemos nossa essência conosco", explica Annapurna Devi Pandey, professora de Antropologia da Universidade da Califórnia em Santa Cruz. "Sabemos que nossos filhos serão criados aqui, portanto queremos que este seja um lugar onde eles se sintam em casa."

A igreja da 'não religião'
No coração do Vale, em Palo Alto, a C3 Church (Christian City Church) promove seus cultos com o slogan: "Você não é religioso? Nós também não!". Todos os domingos, a C3 enfeita com bandeirinhas uma sala alugada de um centro comunitário judaico.
O clima dentro do auditório escuro é mais de boate do que de igreja. E a abordagem junto aos fiéis é bastante energética, uma aposta do pastor Adam Smallcombe, um australiano que se mudou para o Vale do Silício com o objetivo de fundar a igreja.
"Queríamos que as pessoas tivessem um sentimento de pertencer a algo maior, independentemente de suas crenças", explica ele. A C3 se diz "não religiosa" em suas atividades e não se enquadra no que "o governo define como sendo uma organização religiosa".
"Em vez disso, acreditamos que a comunidade vem antes de Cristo", afirma o pastor.
Vadim Lavrusik, gerente de produto do Facebook, frequenta a C3 com sua família. Para ele, a igreja reflete a cultura empresarial do Vale, onde a ideia de "pensar fora da caixinha" é aplaudida. "Me sinto incentivado a refletir mais e a encontrar soluções novas para os problemas", conta.
Religiosos ou não, os fieis do Vale do Silício parecem ter dado trégua à cultura local do sucesso a qualquer preço. A adoção da espiritualidade se tornou mais fácil e menos estigmatizada nessa sociedade movida a dados objetivos.
"O Vale do Silício pode ser um mundo autocentrado onde as pessoas se perdem tentando criar a nova grande tecnologia ou a nova grande empresa", afirma Vaccarello. "Mas isso nem sempre é a receita da felicidade."

Publicado em BBC Brasil

Leia a versão original desta reportagem em inglês no site da BBC Capital.
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