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Cristãos de Hong Kong criticam novas pressões de Pequim

Apesar de independências pontuais em relação ao continente, comunidade local teme maior cerceamento de seus direitos.
Durante anos, o reverendo Philip Woo, líder entusiasmado de uma pequena igreja protestante daqui, tem se encantado em testar os limites das leis restritivas à religião existentes na China. Do seu altar em Hong Kong, ele proferiu sermões ferozes sobre direitos humanos, conduziu seminários sobre problemas sociais para estudantes da China continental e ordenou pastores no continente sem permissão do Partido Comunista, no poder.
Woo, porém, antigo morador de Hong Kong, ficou surpreso quando, recentemente, foi convocado a atravessar a fronteira e se encontrar com autoridades da Administração de Assuntos Religiosos. Durante o chá, ele foi acusado de violar uma série de leis, recebendo ordens para parar.
A vibrante comunidade cristã de Hong Kong é um antigo polo de atração para visitantes da China continental. Dezenas de milhares de pessoas cruzam a fronteira todo ano para fazer a escola dominical, seminários e reuniões gigantescas nesta antiga colônia britânica, que desfruta de mais liberdades, incluindo a religiosa, que o resto do país.
Entretanto, à medida que o governo do presidente, Xi Jinping, tem tomado medidas para limitar a influência do cristianismo no continente, incluindo uma campanha polêmica para derrubar cruzes em partes da China oriental, as atividades de algumas igrejas de Hong Kong passaram a ficar sob análise oficial. A atenção de Pequim aumentou as preocupações aqui sobre a intromissão na autonomia de Hong Kong, motivando críticas de cristãos da cidade.
"Nós achávamos que a China fosse mais receptiva à religião. Agora, achamos que esteja endurecendo", disse Woo, de 61 anos.
Nos últimos meses, autoridades chinesas impediram moradores do continente de participar de conferências religiosas em Hong Kong, aumentaram a supervisão de programas continentais coordenados por pastores de Hong Kong e deram avisos a líderes sem papas na língua como Woo.
"Muitos pastores estão preocupados. Alguns estão reconsiderando seu trabalho no continente", disse o reverendo Wu Chi-wai, diretor executivo do Movimento de Renovação da Igreja de Hong Kong, um grupo cristão.
À medida que um renascimento espiritual varria a China nas últimas décadas, o Partido Comunista, oficialmente ateu, se tornou mais tolerante ao fato de pessoas exercerem sua fé em outros lugares além das igrejas e templos controlados pelo PC. Na China, o cristianismo é uma religião de crescimento veloz, com pelo menos 67 milhões de seguidores, muitos dos quais participam de igrejas independentes, clandestinas ou não oficiais, muitas vezes com o consentimento do governo.
Todavia, Xi presidiu uma repressão à sociedade civil, com foco em indivíduos e organizações ligadas a estrangeiros, incluindo advogados, grupos sem fins lucrativos e líderes religiosos. Há muito tempo o PC associou o cristianismo a valores ocidentais subversivos, e durante o ano passado, autoridades aceleraram as iniciativas de demolir igrejas, fechar escolas cristãs e remover cruzes.
Historicamente, os líderes chineses mostram grande tolerância em relação a Hong Kong, que foi um centro para missionários cristãos durante o domínio britânico. Agora, ali existem perto de 850 mil cristãos, 1.500 igrejas, um jornal cristão e uma universidade batista.
Porém, durante os protestos pró-democracia do ano passado, conhecidos como Revolução do Guarda-Chuva, o PC sinalizou sua ansiedade em relação à influência dos cristãos daqui que levam seus ensinamentos à China continental. Jornais a favor de Pequim destacaram que vários líderes das manifestações eram cristãos.
Quase 60 por cento das igrejas de Hong Kong estavam envolvidas com trabalho na China continental, como, por exemplo, formação teológica no ano passado, segundo pesquisa do Movimento de Renovação da Igreja de Hong Kong. Contudo, divulgar o evangelho no continente pode ser difícil. Moradores de Hong Kong costumam ser tratados como estrangeiros e não podem abrir igrejas, entregar panfletos, converter nem pregar.
Embora pastores provocadores como Woo tenham buscado questionar as leis nos últimos anos, vários líderes de igrejas grandes de Hong Kong disseram ter aderido às restrições no continente.
"Nós vamos à China mostrar interesse pela pátria. Certamente não iremos fazer nada contra o país ou o governo", disse o reverendo Ho Kwok-tim, chefe da Igreja Vida Nova de Hong Kong.
O reverendo John Qian, ex-pastor de Hong Kong que ajuda a administrar programas religiosos de caridade na China continental, disse que as autoridades de lá começaram a monitorar mais de perto seu trabalho no ano passado. A polícia lhe disse que ele deve informar suas visitas à igreja continental. E neste ano, quando encomendou crachás e roupas para uma conferência em Hong Kong, o funcionário do continente que cuidou do pedido foi preso e os materiais, confiscados.
"Isso é uma violação à liberdade de Hong Kong e enfraquece o 'um país, dois sistemas'", disse Qian, referindo-se ao termo empregado para descrever a relação entre China e Hong Kong.
Quando Woo foi convocado à Administração de Assuntos Religiosos, do outro lado da fronteira, na cidade de Shenzhen, em julho, as autoridades pareciam mais incomodadas com seu uso agressivo da mídia social para recrutar estudantes no continente para seus seminários. Ele também foi aconselhado a parar de ensinar estudantes da China continental em Hong Kong.
Após se reunir com as autoridades, Woo assinou uma carta dizendo que ele violou uma lei chinesa que proíbe a estrangeiros realizar formação religiosa sem permissão e teve permissão de voltar para casa.
Desde então, Woo viajou ao continente várias vezes sem problemas. Porém, parou de trabalhar com o ramo de sua organização em Shenzhen, Igreja Cristã do Ministério Chinês, e transferiu seu pessoal para um local remoto para evitar a intromissão do governo.
As autoridades de Shenzhen não quiseram se manifestar.
Apesar da tensão recente, líderes cristãos disseram não acreditar que a China estivesse aumentando a pressão sobre a religião em Hong Kong e que a situação de Woo era incomum.
"Os chineses são amistosos com algumas igrejas e não com outras. Eles têm uma lista", disse o reverendo Lo Lung Kwong, professor de Teologia da Universidade Chinesa de Hong Kong.

Publicado em O Globo
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