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‘Quero dar para eles a oportunidade que eu tive’, diz pastor ex-traficante

Os traumas de uma infância perdida e uma adolescência violenta deram a Jefferson de Oliveira, o pastor Mosquito, a obstinação de resgatar jovens do crime e das ruas. Por meio da comunidade que fundou, a Igreja Apostólica Resgate, Mosquito tem visitado locais onde há tráfico de drogas e apresentado a proposta de vida cristã a diversos meninos e meninas. Além disso, segundo ele, tem promovido atividades ligadas ao esporte, à música e feito parcerias com empresas para abertura de vagas de emprego para esses jovens.
“Vamos nas biqueiras buscar os meninos e, quando estão firmes, tentamos colocá-los no mercado de trabalho. Temos um grande parceiro que tem abraçado essa causa conosco e nos ajudado nisso. Mas não é fácil”, afirmou.
A abordagem a essas pessoas se dá pela identificação de Jefferson com elas. Ele nasceu em Franca, em 1983, e cresceu com os avós, a dona de casa Alice e o lavrador Benedito, na Vila São Sebastião. Aos 6 anos de idade, começou a trabalhar para ajudar em casa. “Comecei a costurar sapatos. Ia para a escola e, quando chegava, já tinha serviço em casa para fazer. Quando meus avós ainda eram vivos, existia brincadeira mas, quando morreram, acabei me envolvendo com drogas.”
Com o pai “sumido no mundo” e a mãe sem acolhê-lo, foi morar sozinho, na casa deixada pelos avós, aos 9 anos. Disse que iniciou o uso de maconha, cheirava cola consumia diversas drogas ao ponto de ser um viciado aos 12 anos, idade em que praticou seu primeiro crime. “Assaltei uma senhora, com uma faca, quando ela estava saindo para o trabalho. Fiz isso não sob o efeito de droga, mas por querer a droga, em estado de abstinência. Depois a gente, a quadrilha, começou a usar revólver nos assaltos. Desse grupo, muitos morreram ‘nessa vida’. Eu, por exemplo, tomei facada, levei tiro, passei fome”, afirma ele.

Mudanças
Jefferson conta que a redenção começou pelo medo. Aos 16 anos, foi flagrado com meio quilo de cocaína pela Polícia e enviado para uma unidade da Febem (Fundação Estadual do Bem Estar do Menor), em São Paulo. Lá, descobriu o verdadeiro horror da violência.
“Foi em 1997, na unidade da Imigrantes, que eu conheci uma coisa chamada rebelião e minha vida começou a mudar. Três dias antes dela explodir, os rumores começaram e a gente mal dormia. Cada menino começou a improvisar uma arma para se defender. Como eu era do interior, estava mais frágil e sem turma. Um menino ficou com dó e me deu um espeto”, contou.
Ele diz que não se esquece da experiência vivida naquela unidade. “Nunca vi nada parecido. Em dado momento, quando os internos viram que o governador Mário Covas não ia ceder às exigências, enrolaram, na minha frente, um menino no colchão e cortaram a cabeça dele. Depois jogaram para o governador e a tropa de choque entrou”.

Reviravolta
A partir desse episódio, com o objetivo de não voltar à Febem, Jefferson foi orientado por um advogado a buscar por uma clínica de recuperação. Nas reuniões evangélicas do abrigo, em Ribeirão Preto, viu na proposta da filosofia cristã um alento, esperança de recomeço, e decidiu deixar seu passado para trás.
“Por isso me identifico com esses meninos que estão nas ruas e envolvidos com drogas e quero para eles a oportunidade que eu tive”.
Jeffeson reconhece as dificuldades para se recuperar, mas disse que, com apoio, é possível conseguir. “Não é um caminho fácil porque a sociedade é, de forma geral, excludente. Quando saí da clínica, não conseguia emprego. Um pastor me ofereceu dinheiro e me mandou a São Paulo para comprar panos de prato. Vendi todos e, pela primeira vez na vida, vi que era bom em algo útil. E é nisso que eu acredito, que esses jovens só precisem de alguém que acredite neles para se descobrirem, também, úteis”.

Publicado em Portal GCN


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