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O criacionismo invade a Europa

Hominídeo Australopithecus afarensis
Um movimento anticientífico antes restrito aos EUA está ganhando território no lado leste do Atlântico.
“Isso é ultrajante!” Com o rosto vermelho e visivelmente agitado, o homem de 60 e poucos anos estava correndo em direção a uma reconstrução hiper realista de silicone de Lucy, a mundialmente famosa Australopithecus afarensis de 3,2 milhões de anos de idade. Depois de alguns minutos confusos, verificou-se que o homem seguia uma crença, baseada na bíblia, de que o mundo possuiria cerca de 6 mil anos de idade. Mas ele não se opunha a idade evolutiva de Lucy, e sim à sua nudez. “Você precisa cobri-la! É quase tão ruim quanto ir à praia!”
Lucy é uma das principais atrações das “Escadas da Evolução,” no hall central do Museu Moesgaard, Dinamarca. A nova atração tinha acabado de abrir, aumentando o número anual de visitas do museu de dezenas de milhares para gritantes 500.000 no primeiro ano. Houve grande cuidado para que fossem dadas expressões individuais às reconstruções científicas, fazendo com que se destacassem como pessoas, e não apenas parentes evolucionários distantes.
E lá estava ela — escura e peluda, com um metro de altura e ar confiante. O visitante criacionista, no entanto, nunca viu o macaco nela. Ele viu apenas o seu corpo nu. A antiguidade importava menos do que moral. A exibição funcionou.
Nós dois já tivemos encontros com criacionistas. Eles veem em todas as formas e representam todas as grandes denominações. Vivem em cidades e na zona rural. Alguns são bem instruídos, alguns pertencem ao establishment e outros não. Alguns são bem organizados e financiados, outros não. Vários são dedicados à uma causa, muitos como missionários com o papel de espalhar a palavra da criação divina em oposição à evolução; outros guardam a ideia para si mesmos. Mas, apesar das diferenças, possuem algo em comum: são todos europeus.
Nós estamos acostumados a pensar no criacionismo como um fenômeno exclusivamente norte americano. Não é. Apesar de ter surgido nos EUA, o criacionismo organizado se espalhou pelo mundo. Mas, na Europa, o criacionismo não representa uma comunidade unida; varia muito de um país para o outro. Em alguns países, o criacionismo fornece identidade para comunidades religiosas menores, e tem pouco impacto. É o caso da Escandinávia. Em outros lugares, o criacionismo está ligado à subculturas bem organizadas e substanciais. Podemos observar isso na Holanda. E, em alguns outros locais, o criacionismo existe entre elites religiosas que possuem um poder político considerável. Um exemplo notável é a Rússia.
Por anos, ainda que criacionistas estivessem crescendo em número nos países europeus e desenvolvendo, gradualmente, influência em escolas e comunidades locais, eles se mantinham fora do radar e não eram uma grande preocupação. Não até, pelo menos, uma década atrás, quando o Conselho da Europa emitiu um alerta contra o crescimento do criacionismo e sobre a possível ameaça que ele representava para o sistema educacional. Nesse momento, o criacionismo virou tema de debate público e político. Pesquisas foram feitas por toda a Europa para determinar a opinião pública. Algumas pesquisas online foram hackeadas por criacionistas turcos que buscavam alterar o resultado. Livros, panfletos e sites foram lançados e começaram a circular. E a mídia adorou.
Alguns jornalistas investigativos tentaram entender o que estava realmente acontecendo e quem eram esses criacionistas. A maioria, eles descobriram, estavam apenas repetindo a velha temática ciência versus religião — evolução contra criação, com Darwin de um lado e Deus no outro, esperando o sino para começarem o próximo round. Desavisados sobre todos os truques desenvolvidos pelos criacionistas americanos, no entanto, os jornalistas europeus frequentemente pulavam para a “perspectiva balanceada” padrão, olhando o caso dos dois pontos de vista. A cobertura noticiosa e as histórias para contextualização tratavam das diferenças entre ciência e religião como uma questão de gosto pessoal. Onde ainda não havia debate, a mídia ajudava os criacionistas a criar um na esfera pública.
A dupla celebração de Darwin em 2009 — comemorando o aniversário de 150 anos da publicação de "A Origem das Espécies" e o 200º aniversário do pai da teoria da evolução moderna — ajudou os criacionistas europeus de maneiras inesperadas. Eles conseguiram mais exposição midiática do que nunca. Em toda parte, jornalistas abordaram o aniversário da perspectiva do conflito entre ciência e religião. Isso deu aos criacionistas acesso fácil à grande mídia. Mas mais importante foi o advento das mídias sociais e a facilidade com que sites podiam ser criados: criacionistas podiam produzir muito mais material acessível para um número muito maior de pessoas. Isso também forneceu novas plataformas para a comunicação entre comunidades criacionistas. Algumas até clamaram por uma união de forças entre as religiões, no que foi concebido como uma causa comum contra o ateísmo.
Poucos na comunidade científica esperavam por isso. Em alguns países, os criacionistas possuíam um orçamento maior para atividades anti evolução no ano de Darwin do que organizações científicas tinham para promover ciência e evolução. Muitas das campanhas foram bem produzidas, eram espertas e causaram impacto. Apesar do fato de nações europeias estarem, de maneira geral, entre aquelas com as maiores taxas de aceitação pública da teoria da evolução — com notável exceção da Turquia — notícias e pesquisas demais estavam mostrando uma mudança na opinião pública.
Nós aprendemos que confrontar o criacionismo não é uma questão científica, mas sim política. Quando se trata de criacionismo, não basta coletar e alinhar todas as evidências e argumentos nos quais a teoria da evolução se apoia. Ao invés disso, cientistas precisam sair e operar em todas as plataformas onde os criacionistas estão ativos. O que inclui dar palestras públicas, escrever artigos em revistas e jornais populares, bem como discutir a questão na televisão e no rádio, desenvolver e manter sites sobre a evolução, e via exibições.
Quando o criacionismo encontra um caminho para dentro do sistema educacional, cientistas europeus não apenas comentam em jornais. Eles organizam e buscam apoio para ações de oposição. Quando um ministro da educação sérvio ordenou que escolas parassem de ensinar evolução, a Acadêmia Sérvia de Ciência incitou uma campanha anti-criacionista, apoiada por 40 organizações diferentes, que eventualmente pressionaram o ministro, fazendo com que ele se demitisse.
Apesar de parecer que os criacionistas estão aqui para ficar — inclusive na Europa— eles não constituem a maior ameaça para o entendimento da evolução. Ao lidar com o aumento do criacionismo na Europa, nós aprendemos uma lição surpreendente sobre como as pessoas pensam. Mesmo que elas afirmem aceitar a evolução, tendem a interpretar os processos evolutivos de maneira intuitiva, mas cientificamente incorreta. A evolução, como assunto, é frequentemente tratado de modo marginalizado nas escolas europeias e, às vezes, é até mesmo negligenciado. Ironicamente, tendo sido forçados a considerar os anti evolucionistas operando na Europa, nós agora sabemos que precisamos fazer mais para conseguir que as pessoas entendam o que sabemos sobre os processos fundamentais da vida na Terra. Nós precisamos trabalhar em múltiplas plataformas para sermos bem-sucedidos e precisamos de bons exemplos. Com o número de visitantes nos museus de história natural aumentando em toda a Europa nós temos os locais e o interesse público necessários. Agora só precisamos tirar o maior proveito possível disso.

Publicado em Scientific American Brasil


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