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Só baianas de acarajé que respeitam tradição terão licença garantida; evangélicos que vendem "bolinho de Jesus", não

No Pelô, Mary capricha no visual. Só as que respeitam tradição terão licença garantida
Com a promessa de apertar a fiscalização, a secretária Rosemma Maluf garantiu que o objetivo é fortalecer a forma tradicional de fazer e vender o bolinho.
A prefeitura resolveu colocar um pouco de molho na polêmica envolvendo as baianas de acarajé tradicionais, evangélicas que vendem o “bolinho de Jesus” e empresários que comercializam o acarajé congelado. Na semana em que o ofício de baiana completa dez anos como Patrimônio Imaterial Nacional, a Secretaria de Ordem Pública (Semop) escolheu seu lado na apimentada disputa: o da tradição.
Com a promessa de apertar a fiscalização, a secretária Rosemma Maluf garantiu que o objetivo é fortalecer a forma tradicional de fazer e vender o bolinho. Na verdade, já existe o Decreto Municipal 12.175, de novembro de 1998, que atribui obrigações para o comércio exercido pela baiana de acarajé e de mingau. Mas Rosemma anunciou que o decreto será modernizado.
Depois de algumas reuniões com a Associação de Baianas de Acarajé, Mingau e Receptivo (Abam), a secretária disse que pretende seguir o que reza a certidão de registro pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan), que prevê o uso de indumentária e receita específicas. Desde o primeiro decreto, quando passou a ser obrigatório o alvará de autorização, as baianas deveriam “utilizar vestimenta típica de acordo com a tradição da cultura afro-brasileira”.
A ideia é, segundo ela, “lapidar” essa lei, fiscalizar com rigor e licenciar apenas as baianas que respeitam a tradição na hora de se vestir e de fazer o acarajé. “No espaço público, só vamos licenciar as baianas caracterizadas. Existe uma indumentária que precisa ser preservada e uma forma de fazer o bolinho. Senão, o ofício vai acabar”, acredita a secretária. “O acarajé tradicional é patrimônio de uma comunidade e precisa ser respeitado”, concorda a presidente da Abam, Rita Santos.
O que não quer dizer que as baianas precisem usar roupas pesadas, como as saias carregadas de anáguas. Costureira de mão cheia, especialista em trajes relacionados com o candomblé, Gersonice Azevêdo Brandão, a Equede Sinha, do Terreiro Casa Branca, afirma que o traje da baiana de acarajé pode ser “o mais simples possível”, ou seja, saia, bata, torço e fios de contas. “Não precisa desfilar roupas caras e brilhosas. O que não pode é descaracterizar”, defende.
Sobre os bolinhos, as baianas defendem que sejam feitos de feijão fradinho temperado apenas com cebola e sal e frito no dendê. No recheio, o básico. “O acarajé original só tinha pimenta e vatapá. Depois, entrou o camarão e, recentemente, o caruru. Mas como também fazem parte do cardápio dos orixás não tem problema”, explica o cozinheiro e babalorixá Carlos Barbosa dos Santos, o pai Gueji de Oyá, do Terreiro Ilê Axé Opô Igbalé. Quem incrementa a receita, como o baiano de acarajé Yan Reinel, no Caminho de Areia, diz que não tem a intenção de mudar a tradição.
“Eu vendo com siri e bacalhau por causa de clientes que têm alergia ao camarão. Mas mantenho a forma de fazer. Em momento algum quero mudar o bolinho”, garante. Apesar de defender a tradição, a atuação da prefeitura se restringiria ao espaço público. Por isso, a Abam já anunciou que vai entrar na Justiça contra empresários que produzem acarajé congelado e restaurantes que servem a iguaria como artesanal.
Nesse embate, o Iphan também está com as baianas tradicionais. Mas, diz o superintendente Carlos Amorim, o órgão só poderá restringir formas de atuação quando a discussão avançar para o campo econômico. “O registro se realiza pelo fazer do tabuleiro e do ofício. Para que haja garantias econômicas, temos que avançar mais para a área que registra patentes de formas tradicionais de cerveja ou queijos, por exemplo, do que para o campo do patrimônio imaterial. Mas apoiamos as baianas”, afirma.

Publicado em Correio 24 Horas


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