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O que significa "reunificação" para católicos e protestantes?


No 500º aniversário da Reforma, as Igrejas na Alemanha parecem concordar, assim como os dois homens à sua frente. Finalmente, há um caminho comum para aqueles que deveriam estar unidos? Sim, responde Hannes Leitlein, a Igreja do futuro estará unida. Não, responde Raoul Löbbert, falta aos cristãos a vontade de unidade.

A reportagem é do sítio Zeit.de, 05-02-2017. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

Eis as respostas.

Sim, responde Hannes Leitlein
A hierarquia da Igreja se alinha de maneira nova, não em segundo plano, em cartas pastorais ou em memoriais, mas através de uma amizade diante dos olhos de todos. Isso é estupendo! Nas relações cordiais entre os “irmãos” Marx e Bedford-Strohm [entre o presidente da Conferência Episcopal Alemã e o presidente da Igreja Evangélica Alemã] realiza-se aquilo que, nos casamentos mistos e em outras iniciativas ecumênicas, já está reunificado há muito tempo.
Essa amizade é reformadora no melhor sentido, para além das disputas sobre o fato de o 500º aniversário ser definido como “Jubileu” ou “Memória”. Pode-se dar por descontado que os dois “grandes amigos”, o presidente da Conferência Episcopal Alemã e o presidente da Igreja Evangélica Alemã, têm em mente aquilo que distingue (mas não divide) as suas confissões. As malícias ou os sarcasmos que às vezes são lançados contra eles por causa das atividades comuns são mais do que injustos.
A Igreja não é um círculo que, em certo ponto, se subdividiu em dois círculos, que, agora, com esforço e dificuldade, devem encontrar um modus vivendi. O ecumenismo é muitas vezes entendido erroneamente assim. Esse olhar é dirigido à restauração do passado. Ao contrário, no ecumenismo, deve-se sempre tratar apenas do futuro das Igrejas – a Igreja do futuro, a reunificação e a renovada reflexão sobre o que é comum.
Esse ecumenismo não deve ser impedido. Mas não porque as Igrejas, por motivos econômicos, sozinhas, não seriam capazes de sobreviver, nem porque a fusão poderia servir para a manutenção do poder, mas porque a Igreja não caminha sozinha. “Onde dois ou três estiverem reunidos em meu nome, aí estou eu no meio deles”, diz Jesus. Também se poderia dizer: onde dois se unem, onde dois se põem de acordo, como se diz no versículo anterior, pela primeira vez, ou de novo, e mais uma vez – em nome de Jesus – ali “acontece” a Igreja. Onde as pessoas são unânimes em aderir ao projeto de Deus, a se colocar a caminho, a Igreja se torna verdadeira, sincera, real.
Isso não significa abandonar o antigo e não dar importância à tradição. Ecumenismo significa manter o que demonstrou ser válido, apreciar o que existe, não jogar fora o tesouro, mas também significa se livrar do peso dos séculos. É preciso se esforçar para distinguir o que é de impedimento e o que empurra para a frente. Ecumenismo é entender o que desejamos fortemente. Tradição, inovação, visão e partida, em vez de resignação e desmantelamento; permanecer com as próprias raízes e crescer em comunhão.
A reunificação é inevitável, porque os cristãos e as cristãs se sentem chamados juntos e se sentem enviados juntos a percorrer um caminho. Nesse sentido, o movimento ecumênico já produziu coisas notáveis. Por exemplo, a Declaração Comum sobre a Doutrina da Justificação, de 1999, que, embora não inconteste, continua sendo um marco. Encontramos outros exemplos nas muitas e pequenas iniciativas e nos pequenos grupos de movimentos ecumênicos que encontram caminhos que não levam em conta dogmas e convenções.
As pessoas começam a se conhecer, descobrem de onde o outro vem, o que o formou de certo modo e, então, refletem certamente sobre a própria tradição, sobre o que, talvez, pode estar faltando do outro lado, se dão conta de que os hábitos próprios são menos habituais para os outros, descobrem o que lhes falta, mas também o que lhes é estranho.
As confissões se caracterizam pelo fato de que muitas pessoas se unem em uma confissão de fé. Mas nem todas essas pessoas sentem como “próprio” esse Credo na mesma medida, nem todas fundamentam sobre ele a sua fé ou consideram verdadeiros todos os detalhes. Em sua maioria, as pessoas se baseiam não tanto no Credo apostólico ou niceno, ou em outras confissões de fé, mas sim nas verdades da fé que sentem e nas experiências de fé que vivem pessoalmente.
Talvez, por isso, seria uma oportunidade começar juntos desde o início, com uma confissão de fé ecumênica, como por exemplo: “Eu não sou Deus”, para poder ousar juntos a afirmação posterior e se perguntar continuamente: o que a minha tradição, a minha vivência diz sobre isso?
Reunificação, como demonstram o cardeal e o bispo protestante, significa também e sobretudo, para as pessoas de hierarquia, passar um tempo juntos, beber um copo de vinho, dar uma volta de bicicleta, caminhar juntos, seja em Munique ou na Terra Santa. Sabe-se lá se, em segredo, eles já não celebram juntos a Ceia do Senhor...

Não, responde Raoul Löbbert
Os idílios são enganosos. Por mais que o cardeal Reinhard Marx, presidente da Conferência Episcopal Alemã, e Heinrich Bedford-Strohm, presidente do Conselho da EKD, concordem muito humanamente, a sua amizade não é um passo significativo rumo à comunhão de amor ecumênica das duas confissões na Alemanha. Embora à frente das hierarquias haja sinais muito vistosos de distensão e serenidade, a reunificação não ocorrerá com eles. E há motivos pelos quais ela não ocorrerá.
Reunificação é uma palavra perigosa. Ela sugere o retorno a um paraíso que se perdeu. A ruptura de ontem não é mais verdadeira. O que divide não tem importância. Não há vencedores nem vencidos, há apenas a promessa de que tudo será muito bonito, que haverá paisagens resplandecentes por toda a parte.
A decepção é bem maior se o futuro não corresponde às expectativas. Se nos damos conta de que realmente não há um caminho comum para aqueles que deveriam estar unidos.
A reunificação, como história da salvação não controlável, traz dentro de si o germe da desilusão. Como alemães, sabemos muito bem disso.
Talvez por isso as autoridades eclesiásticas na Alemanha custam tanto em falar de reunificação quando se fala de unidade dos cristãos, de ecumenismo: com toda a simpatia possível pela “outra parte”, eles não querem semear falsas esperanças.
Tomemos o caso do cardeal Walter Kasper. Ele afirmava recentemente, é claro, que a unidade dos cristãos é possível, mas, justamente, não na forma de uma Igreja reunificada, mas como “comunhão de diferenças reconciliadas, em que até mesmo as formas historicamente definidas devem ser respeitadas”. Uma formulação diplomaticamente bem sopesada, que diz tudo e não diz nada. Em uma unidade “reconciliada, mas diversa”, Kasper sabe disso, é mais difícil que a decepção abra caminho. A esperança é uma planta delicada que é preciso regar apenas o suficiente para não fazê-la secar.
Se a Alemanha, por exemplo, fosse uma unidade desse tipo, se a Alemanha Oriental não tivesse desaparecido, os presidentes dos dois Estados se encontrariam hoje por ocasião das visitas de Estado recíprocas. Até mesmo a palavra “reunificação” seria percebida como subversiva e perigosa para o status quo.
Se isso não aconteceu assim, não dependeu dos poderosos, que concordavam entre si. Dependeu das pessoas do lado Leste que não permitiram. Elas queriam a reunificação, e nenhum defensor das fronteiras, nenhum objetor cético pôde detê-las.
O que falta hoje para muitos cristãos é precisamente esse desejo absoluto de unidade. Diz-se frequentemente que o cisma é uma ferida sangrando no coração de Cristo. Pode ser. Mas, para muitos cristãos, o peso do sofrimento no coração parece contido. Os católicos e os protestantes estão muito à vontade nas suas formas historicamente definidas, apesar dos obrigatórios reconhecimentos ecumênicos. Cada um canta os próprios hinos, celebra as funções à sua maneira e se sente em paz, senão com o mundo, pelo menos consigo mesmo.
E, para o coração de Cristo que sangra ocasionalmente, há as cerimônias interconfessionais e os gêmeos siameses do ecumenismo Bedford-Strohm e Marx. É justo que, sobre a questão dos refugiados, eles expressam uma atitude comum das Igrejas em relação ao exterior. Mas que façam o mesmo no seu interior, como se fossem uma grande família feliz, não é. A sua mensagem de harmonia oferece uma falsa consolação. Passa por cima do conjunto dos problemas. Leva a pensar que tudo vai bem, se estivermos de acordo: não há motivo para mudar qualquer coisa nem mudar a si mesmo! O cisma, assim, se torna mais suportável.
Aqueles que, no dia 9 de novembro de 1989, dançavam sobre o Muro, amarravam o seu destino a uma promessa, porque pensavam que não podiam mais suportar a divisão. As pessoas tomavam o seu destino nas suas mãos. O poder teve que obedecer. A situação dos cristãos alemães hoje é comparável à consciência dos alemães ocidentais da época: ao contrário daqueles do Leste, era muito bom para eles acreditar na reunificação que os políticos no parlamento sonhavam mais como sentido patriótico do dever do que como convicção efetiva.
Por isso, João Paulo II e Bento XVI fizeram mais pelo ecumenismo na Alemanha do que aqueles que a vivem hoje como uma “love story” fotográfica. Ambos tinham declarado que os protestantes e as outras comunidades cristãs “não são Igrejas em sentido próprio”.
As palavras dos papas desencadearam no ano 2000 e em 2007, no mundo católico e no protestante, uma tempestade de indignação. É a indignação e não a nostalgia de harmonia o motor da mudança. Na época, se podia sentir muito bem a paixão que torna possível as revoluções pacíficas. Até hoje, foi o máximo dos sentimentos. Que pena.

Publicado originalmente em Revista IHU On-Line

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