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Os índios cristãos protestantes da Ibiapaba, no Piauí

Os índios protestantes chegaram na serra da Ibiapaba antes dos padres Jesuítas, da Companhia de Jesus
Artigo por Marcus Paixão

A historiografia piauiense cobre muito bem a presença católica no período colonial na região norte da província. A chegada de padres jesuítas, o trabalho de catequização, os aldeamentos, e todo o trabalho católico entre os índios está bem apresentado. O que ficou obscuro e pouco discutido na historiografia piauiense foi a forte presença dos índios protestantes calvinistas que ocuparam a Ibiapaba em 1654-1660 , frutos do trabalho missionário e pastoral do Holandeses em Pernambuco. Depois da capitulação do projeto holandês no Brasil, os índios Potiguara, que haviam recebido a fé protestante e boa educação, sabendo muitos deles ler e escrever, deixaram Pernambuco e rumaram para a Ibiapaba, para se refugiarem dos portugueses.
Causa estranheza o fato de não se mencionar a existência dos índios de fé Reformada (protestantes calvinistas) na serra da Ibiapaba pelos historiadores piauienses. Odilon Nunes, que escreveu boa parte da história do Piauí e fez extensas pesquisas, não aprofunda a questão, senão em observar a presença holandesa no Piauí. Esperava-se que Cláudio Melo, pelo fato de ser sacerdote e pesquisador da História da igreja Cristã no Piauí, aprofundasse a temática e desse destaque à igreja protestante que existiu por dois anos na serra da Ibiapaba. Contudo, ele não faz referência aos nativos protestantes, que contabilizavam cerca de dois mil índios. Esse é um número bastante expressivo para passar despercebido. Os protestantes indígenas eram totalmente organizados e fluentes no conhecimento teológico, catequizados com os principais catecismos e confissões de fé utilizados naquele período, tendo seus líderes indígenas navegado ainda criança para os Países Baixos e ali desfrutado de treinamento e educação refinada.
Por quatro anos (1656-1660) a igreja protestante dos índios da Ibiapaba se propagou, autônoma, evangelizadora, sem a disputa dos jesuítas, pois não havia presença católica nesse período. Esse certamente é um fato capaz de gerar incômodo aos historiadores católicos e a quantos acreditaram que houve um pioneirismo católico romano na evangelização dos nativos da Ibiapaba e dos Alongases.
Está equivocado o padre Cláudio Melo ao afirmar que “a história religiosa de Campo Maior começa com os primeiros contatos dos missionários da Ibiapaba com nossos selvícolas Potis e Alongases. Isto se deu a partir de 1658...” (MELO, 1983, p. 43). A história religiosa de Campo Maior teve início a partir dos primeiros contatos dos índios protestantes reformados com os índios que cobriam nossas paragens, em 1654. Foi uma evangelização mais fácil e de maior efeito, por ter sido entre os próprios índios. O contato evangelizador do Jesuíta com os índios só aconteceu depois disso. Ele chega mesmo, na minha opinião, a se contradizer, ao afirmar: “não se sabe quem primeiro pregou a fé, mas se sabe que, pela época da segunda missão jesuítica na Ibiapaba, aqueles índios que solicitaram a missão já eram cristãos, fugitivos do poderio holandês de Pernambuco, conforme nos diz o Pe. Betendorf.” (MELO, 1983, p. 29-30. Grifo meu). Ele afirma que, quando os jesuítas chegaram na Ibiapaba, na segunda Missão, os índios que eles encontraram ali já eram cristãos. A explicação para isso é apenas uma: a igreja protestante indígena estava na Ibiapaba. Não resta a menor dúvida disso atualmente. Odilon Nunes lembra que havia índios na Ibiapaba que já eram descritos como hereges, e isso, agora sabemos, pelo fato de serem protestantes reformados da igreja holandesa de Nassau: “a luta entre tribos que viviam no interior da serra, a indisciplina e impiedade no seio da mesma missão, provocado por índios, tidos como hereges, porque ainda guardavam alguma influência dos holandeses” (NUNES, 2007, pp. 72-73).
O renomado padre Antonio Vieira, em seu relatório A Missão da Ibiapaba, faz significativa contribuição histórica que confirma a forte presença da igreja indígena protestante:
Como a chegada destes novos hospedes ficou Ibiapaba verdadeiramente a Genebra de todos os sertões do Brazil, porque muitos dos índios Pernambucanos foram nascidos e criados entre os holandeses, sem outro exemplo nem conhecimento da verdadeira religião... No Recife de Pernambuco, que era a corte e empopoio de toda aquela nova Holanda, havia judeus de Amsterdã, Protestantes da Inglaterra, Calvinistas da França, Luteranos da Alemanha e Suécia, e todas as outras seitas do Norte (SOUZA, 2013, p. 113).

Padre Antônio Vieira constatou a presença de índios protestantes na serra da Ibiapaba e os chamou de "hereges"

Em oposição a Odilon Nunes, o padre Antonio Vieira, que foi uma testemunha da existência da igreja protestante indígena, assegura que não foi uma mera influência dos holandeses, mas uma presença dominante, chegando ele a chamar a Ibiapaba de “Genebra de todos os sertões” numa clara referência à Genebra reformada de João Calvino, a cidade modelo da reforma protestante. A Identificação da Ibiapaba com Genebra não se dá por conta de fatores climáticos, isto porque a temperatura da Ibiapaba é bem mais baixa do que no restante do sertão cearense e piauiense, e isso pode confundir o leitor, levando a interpretações equivocadas. O sentimento expresso pelo padre Antonio Vieira era tão somente de infelicidade por conta do domínio dos índios protestante na serra e sobre nações aborígenes vizinhas à serra. Por longos anos as pessoas têm se equivocado em achar que a frase está em sintonia com clima da serra.
Entretanto, sem a ajuda dos Holandeses, que haviam deixado o Brasil, a igreja protestante da serra da Ibiapaba rompe em peregrinação, em 1661, perdurando até o ano de 1692 (SOUZA, 2013, p. 123). Porém, não sem antes deixarem sua contribuição às demais tribos indígenas as quais tiveram a oportunidade de pregar.
Os relatos da existência de índios cristãos nas paragens dos Alongases e do Poti, como asseguram muitos historiadores, inclusive o padre Cláudio Melo, apontam que a pregação dos índios protestantes foi ouvida e assimilada, tanto por meio dos franceses, como também por meios dos índios calvinistas frutos do trabalho missionário holandês. Não se pode negar que a fé reformada foi anunciada no norte do Piauí. Fortalece ainda mais essa afirmação o fato de muitos índios protestantes, no momento da peregrinação, terem optado se dirigir da Ibiapaba para o Maranhão, separando-se do grupo principal, e assim, percorrendo a região do Surubim, sua rota natural. Nos Alongases, no Surubim, e em todo o Piauí o catolicismo romano prevaleceu, criou raízes. A igreja protestante indígena, passageira, veio a desaparecer pouco depois, logo após o fim do Brasil Holandês. O que afirmo aqui não é uma nova história da igreja cristã, mas o resgate de uma história que não foi registrada pelos historiadores modernos. Os historiadores que labutaram em escrever a história do Piauí, especialmente aqueles que se detiveram em pesquisar a história religiosa, se não foram ignorantes quanto a esses fatos, foram parciais ao negligenciarem essa importantíssima página de nossa história.

Publicado originalmente em 180graus
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