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Deus e o “diabo” no mesmo espaço

Nasce uma igreja pentecostal onde antes funcionava um animado baile funk.
A rua ilha da juventude já abrigou um “inferninho” daqueles. Aos domingos, o salão reunia até 1,5 mil funkeiros para o pancadão mais famoso do Jardim Paulistano, na zona norte de São Paulo. Os carros e motos turbinados, os rapazes com cueca à mostra e correntes no pescoço, as moças no rebolado até o chão, a truculência policial para dispersar a multidão... Nada disso existe mais. Hoje, quem passa pela Ilha da Juventude ouve outro som: os gritos dos fiéis e os cânticos da Igreja Evangélica Obra Vida com Deus – Conhecereis a Verdade e Ela Vos Libertará. O funk ostentação cedeu lugar à teologia da prosperidade.
Antes de abrir as portas do templo, o bispo Denis Almeida “ungiu” o lugar e orou durante sete dias. Elson Pereira de Souza, promotor dos antigos bailes funk e dono do galpão agora alugado ao pastor, brinca: “Vai demorar um ano para exorcizar. Era um ambiente tenso”.
Almeida, que antes de pregar no Jardim Paulistano atuava no Jaraguá, na zona oeste, define-se como um “soldado de Cristo”. Sério, embora entusiasmado, gesticula intensamente, enquanto conta a própria história. Perdeu os pais cedo. À época morava em Campo Grande (MS) e sofria de depressão. Oprimido, carente, sonhava em ser jogador de futebol. Aos 19 anos, garante, foi curado da doença por Jesus e descobriu a vida dedicada à fé. Mudou-se para São Paulo e atuou em outras congregações até chegar ao seu destino atual e empenhar-se em uma cruzada contra o funk. “Ele destrói as famílias, é o eixo do mal, o próprio diabo. A jovem de 10, 12 anos sai escondida da mãe. Isso veio causar a divisão familiar. O mal veio para promover esses tipos de eventos. As letras vulgares, uma baixaria.
O bispo afirma ter “salvado” vários jovens do funk, entre eles uma ex-interna da Fundação Casa frequentadora de seus cultos. “Quero falar para os jovens que Jesus liberta, dá uma vida de paz. Quantas mães não perderam seus filhos? A igreja trouxe paz para a comunidade.” Segundo ele, um dia o funk chegará ao fim, pela graça divina. E cita seu próprio exemplo. “Os moradores esperavam tudo aqui neste lugar, menos uma igreja.”
Deus o colocou nessa missão, prossegue, para trazer paz à comunidade. “Eu acredito que São Paulo vai mudar muito sem o funk, os pais veem os filhos com problemas de drogas porque estão no funk, que também atrai a sensualidade.” Se as meninas não estiverem “sensuais”, afirma, não são bem-vistas. “Elas precisam ser vulgares e isso tem atraído muita destruição.”
Os moradores jovens da região têm opiniões diferentes sobre o fim do baile. Bruno Gabriel Adamczuk, de 16 anos, é indiferente à igreja, mas deixou de frequentar bailes e não procurou outra opção. “É melhor ficar em casa. Muita violência, polícia jogando bomba.” Segundo Milena de Souza Raimundo, 20 anos, o funk era bom, mas rolava muita coisa ruim. “A igreja é boa também.” O fiscal de lotação Pedro Henrique dos Santos, de 29 anos, diz sentir raiva da transformação, pois gosta da “bagunça”. “Não gosto de lugar queto (sic), gosto de ver tumulto e fechar a rua e já era, tio.” Mayra Tainá de Souza, 21 anos, concorda: “O funk vai deixar saudades. Agora é uma igreja, fazer o quê?” Ela passou a frequentar um baile no Jaraguá. O motoboy Jonas Moisés da Silva, 25 anos, descreve a mudança na “balada” provocada pela igreja. A alternativa é o pistão, um espaço ao longo da rua no qual diversos carros mantêm o som ligado até o último volume. “Num lugar onde era um funk virar igreja não acho certo, muita coisa ruim aconteceu ali.”
O pastor não se abala: “Me sinto um predestinado por estar aqui”. Ele acredita que a igreja vai fazer bem. “Não cumpri nem um terço da minha missão. Vou fazer um trabalho benfeito nesse bairro. Oro pelo dono para ele vender o salão. Que ele seja tocado por Deus.” Como foi a escolha do lugar? “O Espírito Santo me tocou quando passei em frente.” Ele insiste: “Por todas as igrejas onde congreguei, esta é a mais marcante. Louvar onde era um funk. Oh, glória meu Deus! É um privilégio. Todos querem saber quem é o pastor que congrega onde era o baile funk”.
Souza, o antigo promotor do baile, reflete: “É interessante. De repente, você vê um pessoal de alma tão boa para limpar o ambiente. O baile funk é pesado. No dia que a vizinhança queria descansar, eu abria as portas. Mas não me arrependo. Financeiramente foi muito bom e gerei emprego para muita gente”. Souza não pode reclamar. No seu caso, Deus ou o “diabo” tanto faz. O milagre da multiplicação de dinheiro está garantido.

Carta Capital

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