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Escritor Bruno Vieira Amaral lança livro sobre Igrejas Evangélicas de Portugal

O escritor Bruno Vieira Amaral, vencedor do prémio PEN com o romance de estreia, "As Primeiras Coisas", vai lançar em janeiro um livro sobre as Igrejas Evangélicas em Portugal, numa coleção da Fundação Francisco Manuel dos Santos.
A publicação da obra, intitulada "Aleluia", foi anunciada hoje ao fim da tarde num debate da 1.ª edição do Diáspora - Festival Literário de Belmonte, em que o autor participava, juntamente com os escritores Afonso Cruz e Valério Romão, sobre a dicotomia campo-cidade e sobre se faz sentido falar-se em interioridade no caso de um país tão pequeno como Portugal.
Escrito num registo entre a reportagem e o ensaio, o livro faz um retrato que vai das "multinacionais da fé", como a Igreja Maná e a Igreja Universal do Reino de Deus (IURD), a uma Igreja fundada por um 'dissidente' de uma delas e batizada com o seu nome.
"O livro faz essa descida ao interior, vindo de uma estrutura fria, em que a Igreja é uma máquina e tudo é feito para dominar uma plateia, e vai descendo nessa escala até encontrar a última célula, em que uma religião pode ser uma única pessoa e quanto mais pequena é a célula, mais verdade se sente", disse o moderador do debate, Tito Couto, consultor editorial da Booktailors, produtora executiva do festival promovido pela Câmara Municipal de Belmonte.
Sobre a obra, Bruno Vieira Amaral afirmou acreditar que é isso que todos os escritores procuram: "Partir do geral, fazer a nossa investigação, a nossa pesquisa, e chegar à pessoa, para que depois outros, os leitores, encontrem nessa essência individual aquilo que se pode tornar universal".
"No caso deste livro sobre as Igrejas Evangélicas, foi muito interessante, porque a proposta inicial foi fazer um livro sobre o que é ser suburbano, que é uma coisa assim um pouco vaga e que não me interessava, e eu, por interesse pessoal, propus uma reportagem sobre Igrejas Evangélicas", relatou.
O autor considerava ser "muito interessante entrar nesse universo", porque "de acordo com o último censo, serão à volta de 4% os portugueses que se identificam como cristãos não-católicos".
"Nós temos algumas ideias pré-formatadas sobre o que é um evangélico - a IURD e tal, aleluia, o dízimo - e chegar ao pé destas pessoas, perceber quais são os seus sistemas de referência, como é que a religião afeta o seu dia-a-dia, como é que transportam a sua fé para a relação com os outros, como é que vivem essa fé, onde se encontram aos domingos, tudo isso me fez perceber que nós não sabemos o que se passa com os outros", defendeu.
Na sua opinião, isso "tem muito que ver com a questão da cidade, porque os espaços são importantes para saber quem são as pessoas".
"No livro, eu conto o caso de um rapaz que tem 30 e poucos anos, passou um grande período da sua vida na Igreja Maná, assumiu aí uma série de responsabilidades, a dada altura incompatibilizou-se com a hierarquia da Igreja, saiu, teve um tempo de travessia do deserto e acabou por fundar a sua própria Igreja, que funciona - e aqui é que o aspeto visual é importante - numa garagem na Pontinha", resumiu.
Quem passa por ali, observou, "não se apercebe, não faz ideia do que está lá dentro, aquilo é uma porta de uma garagem, ao lado de umas oficinas, a rua é talvez a rua mais feia do país, tem um ambiente horrível, e lá dentro é como aquelas passagens secretas dos filmes de fantasia, em que uma pessoa empurra uma porta e, de repente, passa para um outro universo - passando aquela porta, entra-se num universo de fé, de adoração".
"E eu, para que os leitores percebam essa diferença, tenho de dar o lado um pouco quase sórdido, urbano, sujo, feio da rua e, depois, a coisa quase gloriosa que é a fé daquelas pessoas", comentou.
Bruno Vieira Amaral também se encontrou com um grupo de estudo bíblico que está agora associado a essa Igreja e descreve-o: "São duas famílias que se juntam numa casa particular às terças-feiras e leem a Bíblia, discutem questões, e é numa rua do Montijo, também nos subúrbios, e também é uma rua particularmente feia, talvez a segunda mais feia do país".
"Eu acho isto fascinante: passar da grande questão das Igrejas Evangélicas, e do Edir Macedo, e da corrupção, e do dinheiro, e dos dízimos e, depois, ir-me aproximando até chegar à essência, aos casos individuais, e perceber porque é que aquelas pessoas fazem aquilo, porque é que aquelas pessoas estão ali - esse é também o trabalho do escritor e - insisto - isto não é um romance, mas o processo é idêntico", sublinhou.
"É passar do geral e aproximarmo-nos das pessoas, e aí a nossa perspetiva muda: já não é 'os evangélicos', já não é a IURD, é o João, é o Nuno, e essa transformação - que é a minha transformação também, enquanto escritor - é o que eu quero que passe para quem lê os meus livros", frisou.
Esta noite, fonte do júri do prêmio Fernando Namora disse à Lusa que o romance "As Primeiras Coisas" de Bruno Vieira Amaral foi o vencedor da 17.ª edição do galardão literário.

Com informações da Lusa via Notícias ao Minuto

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