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Fé em Cuba

O papa Francisco chega ao país supostamente ateu em que o catolicismo vem marcado com as mandingas dos orixás.
Se não fosse la mano de Dios do papa Francisco é bem possível que as relações entre Cuba e Estados Unidos ainda estivessem congeladas no passado rabugento da Guerra Fria. Foi graças a uma carta pessoal do pontífice de Roma, levada a Washington pelo cardeal de Havana, Jaime Ortega, antes do Natal de 2014, que os históricos desafetos voltaram a se falar, num processo às vezes melindroso que culminou, dias atrás, na reabertura das respectivas embaixadas. O fim do bloqueio deve ser o próximo passo.
Tão entranhada de otimismo simbólico quanto o degelo diplomático Washington-Havana será a visita que o papa Francisco iniciará neste dia 19, sábado, à antes amaldiçoada ilha dos irmãos Castro (de lá, a partir do dia 22, o cidadão Jorge Bergoglio voa para aquela que será sua primeira visita ao vizinho Império do Norte).
O fotógrafo italiano Christian Franz Tragni antecipou-se à inédita peregrinação papal e, por um mês inteiro, buscou nas frestas da carapaça materialista de um país comunista e ateu as reminiscências da religião que – até o gesto do papa Francisco – significava para o regime cubano atraso e submissão.
“A visita vai expor uma contradição”, avalia o repórter fotográfico. “Neste momento de tensão para um regime pressionado pela urgência das reformas e do aggiornamento, o catolicismo pode acabar legitimando-se como o porta-voz de uma nova oposição.” Enganam-se, portanto, diz Tragni, aqueles que acham que o esclarecido Francisco vai, em sua vilegiatura cubana, acender uma vela ao castrismo. Vai, ao contrário, incentivar os ventos da mudança.

Não mais que 5%, 6% dos cubanos são católicos praticantes. A santería é a fé da grande maioria da população e faz algum tempo que o regime desistiu de criminalizar os cultos afro. Como no Brasil, um forte sincretismo entroniza em Cuba, no mesmo altar, santos e orixás, a Virgem e Yemanjá, e muitos dos santeiros se dizem católicos. Christian Tragni assistiu, numa igreja de Santiago de la Vega, a duas horas da capital, a um rito febril que lembrava uma típica festa de candomblé.
Dois milhões de pessoas estão sendo aguardados na missa campal a ser celebrada pelo papa, no domingo 20, naquela Plaza de la Revolución onde o regime costuma celebrar seus ritos de passagem. Dificilmente alguém arriscaria a dizer: 2 milhões de fiéis. Não importa, o carismático apelo da figura papal tende, pensa Christian Tragni, a excitar uma energia política que ainda se encontra submersa, entorpecida.
O catolicismo, fortificado pela romaria de Francisco, pode ser o contraponto moderado ao regime envelhecido, um contraponto que não tem nada a ver com os gusanos reclamões de Miami, nem com a oportunista Yoani Sánchez, financiada por eles – um contraponto crítico que respeite a história revolucionária e reconheça as conquistas sociais em áreas tais como educação e saúde, mas que canalize a ansiedade da juventude e de uma classe média nascida da recente abertura econômica.
“O Wi-Fi foi aberto em áreas de Havana e de Santiago de Cuba”, diz Tragni. “A internet começa a ser uma realidade do dia a dia. A gente viu, na Primavera Árabe, aonde isso pode levar.” Novos cenários políticos e sociais vão se abrir fatalmente a partir do reatamento com os Estados Unidos, o fluxo de investimentos multinacionais em turismo e em infraestrutura, o consumismo latente agora expresso no ícone de desejo que é a loja da Nike em Havana (o novo spot de romaria turística na capital); e também com as novas alianças econômicas estratégicas com a China e até mesmo com o Brasil, aliança da qual o Porto de Mariel, aqui tão criticado, é o melhor e mais promissor exemplo.
“Minhas fotos acabam revelando um país dividido entre o passado e o futuro”, resume Tragni. “A globalização chegou derrubando barreiras. O momento em Cuba é de inquietação criativa.”
Do passado, o fotógrafo italiano colheu uma relíquia inédita: fotos, daquelas típicas de colégio religioso, nas quais, em meio à turma perfilada no pátio, aparecem o garoto Fidel Castro e seus irmãos Raúl e Ramón (este, o irmão mais velho dos Castro, tem 90 anos).
A escola católica Dolores, em Santiago de Cuba, extremo oriental da ilha, virou colégio laico após a vitória dos barbudos de Sierra Maestra, em 1959. A capela da escola acolhe hoje respeitosos concertos eruditos. Podia ser pior se as preces tivessem sido substituídas pelos sacolejos trepidantes da salsa e da rumba.

Publicado em Carta Capital

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