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Jesus Cristo, o alvo favorito das ‘fake news’ na história


Está no Evangelho de Marcos, capítulo 8. A caminho do povoado de Cesareia, Jesus pergunta aos apóstolos: “Quem dizem os homens que eu sou?”. As respostas refletem os boatos da época: “Alguns dizem que é João Batista, outros que é Elias ou algum outro dos profetas”. Uma infinidade de histórias sem fundamento continuou pipocando nestes dois milênios desde a passagem do Nazareno pela Terra — apimentadas pela circunstância de que há pouca evidência sobre a própria passagem, que dirá sobre os detalhes dela. Algumas das hipóteses mais repetidas, curiosas ou abertamente estapafúrdias estão reunidas — e devidamente desmontadas — no livro Cogumelo Jesus e Outras Teorias Bizarras sobre Cristo, do escritor Paulo Schmidt (Editora Harper Collins). “Pode-se dizer que Cristo foi, e continua sendo, uma das maiores vítimas de fake news da história”, compara Schmidt.

O escritor vê paralelos na forma como os boatos sobre Jesus foram criados e se espalharam e o modo como hoje funciona a fábrica de notícias falsas da internet. “A fórmula é a mesma, de misturar informação falsa com uma ou outra verdadeira, mas tirada do contexto, e assim passar a impressão de que o conjunto faz sentido”, explica. A obra trata de teorias bem conhecidas, como a de que Jesus e Maria Madalena se casaram e tiveram filhos, e outras menos, como a de que o pai terreno do filho de Deus seria um centurião romano. Das teses que reuniu, a mais sem pé nem cabeça, segundo o autor, é a que dá título ao livro: a de que Jesus não existiu e seria fruto de uma viagem alucinógena dos apóstolos sob o efeito de um cogumelo. A história, cheia de incongruências e malabarismos morfológicos, partiu de um cientista respeitado que depois dela, claro, deixou de sê-lo.

Schmidt enxerga na invenção de histórias sobre Jesus dois motivos principais. Um é o de desmerecer as crenças cristãs investindo contra a reputação dele. O outro é ganhar dinheiro — vide o Código Da Vinci, delirante ficção sobre Cristo, Madalena e sua descendência, que rendeu filme e muitos milhões a seu autor, Dan Brown. As fantasias causam impacto e persistem na memória coletiva porque, de certa forma, aproximam o sacrossanto do homem comum. “Para quase todo o mundo ocidental, o nome de Jesus é sagrado, e sagrado é sinônimo de poder. Queremos que o sagrado caiba em nós mesmos, para que possamos parecer com ele, de alguma forma”, diz o filósofo Luiz Felipe Pondé. “Jesus já passou por tantas adequações a contextos e visões de mundo que não vou me espantar se, daqui a pouco, ele virar um algoritmo”, brinca.

Engrossa consideravelmente o caldo da boataria a falta de documentação original da vida e dos feitos de Cristo. “Temos pouquíssimas certezas sobre o que Jesus realmente disse e fez”, aponta o historiador André Chevitarese, da Universidade Federal do Rio de Janeiro, lembrando que só no século XIX surgiram os primeiros estudos totalmente desvinculados do viés teológico. A prova científica de que Jesus de fato existiu foi constatada por vias indiretas, a chamada múltipla atestação — quando dois ou mais autores que nunca tiveram contato algum entre si descrevem fatos sobre um terceiro, atribuindo-lhe até frases inteiras e quase idênticas. “A ausência de documentação não impediu que as pessoas acreditassem em Cristo. O próprio Sócrates nunca escreveu coisa nenhuma e ninguém deixou de considerá-lo um grande filósofo”, argumenta Chevitarese.

Confira a seguir alguns boatos sobre a vida de Jesus e sua desconstrução:

 A viagem do cogumelo
Teoria: Jesus nunca existiu — era fruto de uma alucinação provocada nos apóstolos pelo consumo do cogumelo Amanita amuscaria, utilizado em rituais antigos (e, curiosamente, o mesmo que dá “vida” ao Super Mario, no videogame). Mais jovem do time de estudiosos recrutado para investigar os Manuscritos do Mar Morto, tesouro arqueológico descoberto em 1947, o britânico John Allegro não gostou do trabalho da equipe e resolveu publicar as próprias conclusões — com sabor de viagem alucinógena — sobre o que havia lido nos pergaminhos. Fundamentou a insanidade com interpretações amalucadas de termos da época.

Desmonte: Ninguém levou a sério quando Allegro cismou que “Yaveh”, o nome judaico de Deus, significava “suco da fecundidade”, uma forma educada de dizer sêmen — o produto do cogumelo de formato “fálico”. Freud explica.


O pai de família
Teoria: Jesus e Maria Madalena se casaram e tiveram filhos. O boato corria muito antes de O Código da Vinci, reforçado pelos escritos da chamada biblioteca de Nag Hammadi, um conjunto de escritos dos gnósticos, seita que conviveu com o cristianismo em seus primórdios e absorveu alguns de seus princípios. A fonte principal da teoria é o Evangelho de Felipe, presente na biblioteca, onde se lê que “a companheira do Salvador é Maria de Magdala. Ele a amava mais do que a todos os discípulos e a beijava frequentemente na boca”.

Desmonte: colocada em seu contexto, a interpretação cai por terra. Primeiro, os gnósticos eram contra a procriação e “companheira”, no caso, não tem nenhuma conotação conjugal. Segundo, beijo na boca, na época, era cumprimento comum.


A marca do Pantera
Teoria: Jesus era filho bastardo de um soldado romano chamado Pandera ou Pantera. O boato, um dos primeiros sobre Cristo, partiu dos rabinos fariseus que ele criticou. No Talmude, compilação de textos de estudo do judaísmo que estava sendo organizada na época, Jesus é frequentemente chamado de Yeshu ben Pandera — ou Pantera, como aparece em textos pagãos da mesma época.

Desmonte: rápido e contundente — não havia soldados romanos na região quando Jesus nasceu. De qualquer forma, dificilmente um filho bastardo teria permissão para entrar em uma sinagoga. Acredita-se que a cisma com o sobrenome “Pandera” seja fruto de uma confusão intencional com a palavra “Parthenos”, que significa “virgem”.


Mais do que amigos
Teoria: Jesus teve um caso com seu amigo Lázaro, a quem teria pedido que se encontrasse com ele para passar a noite “usando um lençol de linho sobre o corpo nu”. Quem levantou essa bola foi o americano Morton Smith, com base em um manuscrito do século XVII encontrado em um monastério em Mar de Saba, no deserto da Judeia pelo próprio pesquisador. O texto que relatava a homossexualidade de Jesus foi atribuído ao teólogo cristão Clemente de Alexandria, que o citava como parte do “Evangelho Secreto de Marcos”.

Desmonte: Antes que fossem realizados exames químicos no material, os tais manuscritos desapareceram. A única prova de sua existência eram as fotos tiradas por Smith. Anos depois, um estudo do texto revelou diferenças de estilo e caligrafia em relação às obras originais de Clemente de Alexandria. Para completar, um professor da Pensilvânia apontou as incríveis semelhanças entre a teoria de Smith e um romance inexpressivo chamado O Mistério de Mar Saba, publicado em 1940.

Publicado originalmente em Veja

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