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Enredo da Mangueira em 2020 vai imaginar o retorno de Cristo num mundo marcado pela intolerância

Carnavalesco bicampeão, Leandro Vieira critica visão de que folia seria espetáculo profano: 'Isso é preconceito, talvez porque é ligado à comunidade preta e pobre'

Deus está aqui, diz a frase pichada no muro de um barraco erguido numa viela do Morro da Mangueira. E se depender de Leandro Vieira, carnavalesco da verde e rosa desde 2016, o filho do Homem também vai baixar na favela. No carnaval de 2020, ele levará Jesus Cristo à Sapucaí no enredo “A verdade vos fará livre”. A ideia não é representar Jesus bíblico e seu martírio, mas lançar um questionamento sobre o que aconteceria se Cristo voltasse à Terra em um ambiente de intolerância generalizada.

— Ele condenaria a hipocrisia dos líderes religiosos e combateria o discurso de ódio — acredita Leandro. — Vamos falar sobre a figura política de Cristo e o que ela pregava: o amor irrestrito, que nos torna livres da intolerância e do preconceito. Essa é a verdade que liberta. Porque não é amor o que faz alguém quebrar um terreiro de candomblé, como fizeram na semana passada ( em Duque de Caxias ), né?

Se Jesus nasceu pobre, num ambiente humilde, dentro da liberdade artística de Leandro esse ambiente é o morro da Mangueira. A partir desse personagem o carnavalesco abordará assuntos como respeito às diferenças e questões de raça e gênero.

“Quando Cristo esteve aqui, ficou do lado dos oprimidos e não fez distinção de pessoas. Será que Jesus não está no morador da favela? No menor abandonado? No gay? Na mãe de santo?”

Polêmica religiosa
Leandro tem consciência de que não vai ser nada fácil. Os embates com a comunidade religiosa podem surgir, afinal a relação entre Igreja e Sapucaí nunca foi das mais tranquilas (veja o box). A polêmica mais famosa aconteceu em 1989, quando a Beija-Flor foi proibida por uma liminar obtida pela Arquidiocese de apresentar na Sapucaí uma réplica do Cristo caracterizado de mendigo (no enredo “Ratos e urubus... Larguem minha fantasia”, de Joãosinho Trinta).

— Tem gente que acha o carnaval um espetáculo profano, o que é um preconceito estrutural. Talvez seja porque o desfile é, em sua origem, ligado à comunidade negra e pobre do Rio — observa. — Nunca tratei meu carnaval como festa ou entretenimento. Num país onde a educação não é para todos, ele pode fazer refletir. É uma manifestação artística que não difere em nada do que Mel Gibson levou para o cinema ( em 2004, o ator dirigiu o filme “A paixão de Cristo” ).

Homem de fé que não segue doutrina religiosa (“minha família tem tradição evangélica e católica, e a vida me aproximou de pessoas de religiões de matriz africana”), Leandro também cita como exemplo as novelas bíblicas e a representação de Cristo em pinturas e esculturas (“por que só o carnaval, arte brasileira por excelência, não pode?”).

— Vivemos num ambiente democrático, e o que a Constituição diz é que não se pode vilipendiar imagens. Não tenho a menor intenção de fazer isso — diz ele, que tem trocado ideias com o pastor progressista Henrique Vieira. — O enredo é uma homenagem, o que já é tradição da escola.

Nascido no Jardim América e criado na Ilha do Governador, Leandro é formado em Belas Artes pela UFRJ e, aos 35 anos, se tornou o artista mais importante do carnaval atual. Por meio da cultura popular, dialoga com o mundo contemporâneo, lançando um olhar crítico sobre o Brasil. No último carnaval, propôs um acerto de contas com a história oficial nacional no enredo “História pra ninar gente grande”, que acabou tomando as salas de aula. Agora, no espetáculo “Matrizes”, que conta com sua direção artística e está em cartaz no barracão da escola, propõe um passeio por manifestações brasileiras como jongo e choro.

Publicado em O Globo

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