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Teólogo ortodoxo afirma que não há inferno


A ideia de que o inferno é uma espécie de prisão perpétua para as almas dos pecadores impenitentes, na qual eles serão submetidos a tormentos por toda a eternidade, é um dos maiores erros interpretativos e morais da história do cristianismo. Dentro da lógica da fé cristã, a única coisa que faz sentido é esperar que todos os seres racionais, sem exceção, acabem se reunindo a Deus no fim dos tempos, diz o teólogo americano David Bentley Hart.

Criado como anglicano e convertido à Igreja Ortodoxa, Hart é conhecido pelo conhecimento enciclopédico e pela verve de polemista em seus livros para o grande público. Mas a defesa do chamado universalismo —ou seja, a crença de que ninguém ficará de fora do Paraíso — certamente é o maior vespeiro no qual ele já mexeu até agora.

Em seu novo livro, “That All Shall Be Saved” (“Que Todos Hajam de Ser Salvos”, ainda sem versão brasileira), o teólogo resolva abordar a questão por múltiplos ângulos, nem sempre com a mesma profundidade ou o mesmo sucesso.


Uma de suas linhas de ataque é histórica. Hart resgata o pensamento de figuras do Oriente Próximo cristão, como são Gregório de Nissa (335 d.C.-395 d.C.) ou Isaac de Nínive (613-700), que defendiam a ideia da reconciliação universal com Deus como parte da doutrina original da Igreja. Ele cita ainda a observação do bispo Basílio de Cesareia (329-379) de que a maioria dos cristãos de sua época, ao menos nas regiões de língua grega que ele conhecia, compartilhavam dessa crença.

Outra abordagem importante é exegética, ou seja, deriva da interpretação e comparação detalhada dos textos do Novo Testamento bíblico. (O Antigo Testamento não figura de modo proeminente nesses debates porque, à exceção de alguns textos tardios, como o livro de Daniel, a porção hebraica da Bíblia quase não aborda temas como o Juízo Final e o destino dos seres humanos após a morte.)

Nessa seara, o teólogo ortodoxo se apoia principalmente nas cartas atribuídas ao apóstolo Paulo, a começar pela que serviu de inspiração para o título do livro. “Deus, nosso

Salvador, quer que todos os homens sejam salvos e cheguem ao conhecimento da verdade”, diz a Primeira Epístola a Timóteo. “Pois, assim como todos morrem em Adão, em Cristo todos receberão a vida”, escreve Paulo na Primeira Epístola aos Coríntios.

E quanto às passagens dos Evangelhos que parecem descrever uma punição sobrenatural para os maus? Hart argumenta que esses trechos têm sabor impreciso e metafórico. “Muitos deles são metáforas de destruição, como a queima da palha do trigo em fornos, ou são metáforas de exclusão, como as portas fechadas de uma festa nupcial. Em nenhum lugar há qualquer descrição de um reino de crueldade perpétua presidido por Satanás, como se ele fosse uma espécie de deus ctônico [subterrâneo]”, escreve ele.

Depois da análise exegética, que traz resultados aparentemente ambíguos para sua tese, Hart mergulha no que considera serem as implicações filosóficas e teológicas da ideia de um inferno perpétuo. Trata-se, em parte, de um pequeno passeio pela história da filosofia cristã, na qual o pensador ortodoxo não poupa dos mais criativos insultos algumas figuras-chave, em especial santo Agostinho (354-430), o dominicano são Tomás de Aquino (1225-1274) e o reformador protestante João Calvino (1509-1564).

O autor reserva boa parte de sua indignação para afirmações como as de são Tomás de Aquino, segundo o qual a beatitude das almas no Paraíso seria aumentada pela consciência dos tormentos dos condenados no inferno, ou à ideia de Calvino de que as regiões infernais teriam uma densa população de bebês “com menos de um cúbito [cerca de 50 cm] de comprimento”.

Tais crenças são, ao mesmo tempo, um problema ético e lógico, diz Hart. Se os dogmas cristãos acerca da suprema bondade, justiça e sabedoria de Deus são verdadeiros, não faz o menor sentido imaginar que ele punirá seres racionais finitos por toda a eternidade apenas por não terem sido batizados como cristãos (como diz Calvino).

E até o pior dos psicopatas e genocidas, argumenta ele, cometeu o mal de maneira finita, argumenta o teólogo. Portanto, qualquer punição eterna seria desproporcional e injusta em relação ao mal cometido por qualquer pecador.

Indo além, o escritor acaba travando um curioso diálogo indireto com as dúvidas lançadas por áreas como a genética e a neurociência sobre o conceito tradicional de livre-arbítrio.

Se está cada vez mais claro que a liberdade das escolhas humanas é fortemente influenciada por inúmeros fatores biológicos e culturais que não dependem do que um indivíduo isolado “realmente quer”, fica muito difícil justificar qualquer punição definitiva. Sem essas limitações intrínsecas, qualquer ente racional naturalmente escolheria o Bem e poderia se unir a Deus, diz o teólogo.

Hart propõe, portanto, que os conceitos tradicionais de inferno deveriam ser repensados como algo muito mais próximo do Purgatório católico: uma situação temporária e purificadora que levaria até os maus mais empedernidos a buscarem, enfim, o seio divino.

Se a discussão parece rarefeita e similar aos proverbiais debates sobre o sexo dos anjos, é importante recordar como os pensadores citados —e vilipendiados— por Hart marcaram a história das ideias e a sociedade do Ocidente. Em variações religiosas ou seculares, tais ideias ainda influenciam o mundo em muitos aspectos.

Folha

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